[Artigo] Que rei sou eu?

Helvécio Cardoso*

Dois meses se passaram da posse de Paulo Garcia em seu segundo mandato e a impressão que se tem que não temos prefeito. Nada mudou. O atual governo municipal prossegue a incúria do anterior, cujo chefe é o mesmo Paulo Garcia. As grandes obras estão paralisadas e os serviços públicos primam pela crescente ineficiência. Fosse a atual administração um novo governo, estabelecido por quem, ainda ontem, estava na oposição, poder-se-ia olhar com indulgência para o Paço. Ocorre que Paulo Garcia é o continuador de si mesmo. Não há, portanto, desculpa.

A lentidão, ou quase paralisia, deste governo reflete em boa medida o temperamento do prefeito Paulo Garcia. Ele não é homem de decisões corajosas. Apesar de eleito por um partido, o PT, que surgiu para brigar, Paulo tende muito mais à acomodação e à contemporização do que ao confronto. Em vez de fixar diretrizes ao aparato governista, ele se comporta, no mais das vezes, como passivo homologador dos planos tendenciosos produzidos pela invisível porem onipresente tecno-burocracia da prefeitura.

Some-se a isso a poderosa influência exercida pelo PMDB em seu governo. Os petistas radicais dele foram excluídos. Os mais moderados, os predispostos a compromissos, os que tergiversam sobre princípios – esses são os prestigiados. Já o PMDB de Iris Rezende virtualmente governa a cidade. É ele, Iris Rezende, a eminência parda, o poder por detrás do trono, o homem que governa o governante. Paulo nunca escondeu de ninguém a estima que tem pelo morubixaba do PMDB, sua devoção, seu devotamento quase filial.

A administração petista de Goiânia está a serviço dos projetos estratégicos do PMDB. È absolutamente óbvio. O projeto estratégico do PMDB toda gente sabe qual é: lançar a candidatura de Iris ao governo do Estado  em 2014. Pouco importa a idade avançada dele – argumentam que Siqueira Campos, mais velho, também disputou e venceu no Tocantins; pouco importa que ele tenha sérios problemas de saúde – enquanto vivo for, Iris continua candidato a governador.

Nesse drama partidário, vale menos os desejos do próprio Iris. É claro que ele uer ser candidato, Tem confidenciado essa sua intenção aos poucos e  privilegiados que gozam de sua intimidade. Mas esse querer tem a ver, também, com o fato de o PMDB não ter outro nome à altura. A liderança de Iris é tão absorvente que não foi capaz de preparar um digno sucessor. A força do PMDB goiano é coisa de Íris, pertence a ele e morre com ele

Vice-prefeito Agenor Mariano (PMDB), autoproclamado porta-voz do Paço: algo está fora da ordem
Vice-prefeito Agenor Mariano (PMDB), autoproclamado porta-voz do Paço Municipal

Já no início deste ano o Irismo se movimentou com assombroso  assanhamento na pessoa do vice prefeito de Goiânia, o arqui-irista Agenor Mariano. Depois de receber precisas instruções de Iris Rezende, e sem prévia consulta a Paulo Garcia, o vice-prefeito veio a público anunciar que o atual governo municipal cogita municipalizar a Saneago. Autoproclamando-se porta-voz da atual gestão, o saliente vice-prefeito levantou acusações pueris contra a Saneago. Sem medir as consequências nefastas de uma municipalização precipitada e sem motivação séria, ele advogou a imediata denúncia do contrato de concessão.

A intenção estouvada do vice-prefeito deixou o titular em situação constrangedora. O vice atropelou a liturgia. Decisão de tamanha gravidade deveria ser tomada, e anunciada, pelo prefeito. Ocorre que o que foi  anunciado pelo vice é uma decisão de Iris, que o PMDD acredita poder empurrar goela abaixo do prefeito.

Paulo ficou em uma sinuca. Não podia desmentir seu vice. Seria entrar em guerra aberta com o PMDB. Não poderia ratificar as declarações do vice. Seria dar a ele uma importância que ainda não tem; seria alimentar a cobra.

Mas, para não bolir nesse ninho de víboras que é o Irismo  e ao mesmo tempo preservar o que ainda lhe resta de autoridade, o prefeito tentou uma saída pela tangente. Anunciou a instalação de uma comissão para, em 90 dias, emitir parecer sobre o assunto. O recado foi claro: O prefeito não aderiu passivamente ao delírio irista, nem o reprovou. Levou o caso com a barriga, dilatando o prazo para a crise resolve-se por si mesma. Quem sabe até lá o assunto caia no esquecimento?

 

* Helvécio Cardoso é jornalista

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