O Popular recupera terreno e faz bela manchete sobre protestos: “Alguma coisa acontece neste país”

Se havia perdido o bonde – a colunista das segundas-feiras, Fabiana Pulcineli, ignorou solenemente o assunto nesta semana e preferiu abordar fatos ocorridos há mais de 10 dias –, O Popular recuperou o terreno com bravura. O redator da manchete usou um verso da conhecidíssima música Sampa, de Caetano Veloso, e resumiu a sensação que cerca os protestos – não apenas contra o transporte coletivo, mas mostrando uma insatisfação difusa com a situação do país.

Com um detalhe muito especial. A música faz referência ao espírito urbano paulista, que condiz perfeitamente com o que acontece hoje (é em São Paulo que as manifestações são mais fortes. Olha só esses dois versos: “Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas”.

Veja a letra completa de Sampa, de Caetano Veloso:

 

Sampa
Caetano Veloso

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos Mutantes

E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa