Carlos Alberto Santa Cruz faz grave denúncia: Iris comprou fazenda com sobra de campanha

Leia artigo publicado no Diário da Manhã pelo jornalista Carlos Alberto Santa Cruz:

Brasil insurreto, Goiás obsceno

Protesto Santo se alevanta agora de mim, de vós, da multidão, do povo!

Castro Alves

De repente, as praças tremeram de gente e os governos tremeram de medo. O Brasil se transformou em um grande anfiteatro, onde o povo, rebelado e insurgente, veio rezar e cantar a mais bela das orações: o hino da liberdade.

Meio século depois, a pátria, amordaçada e garroteada pela propaganda selvagem do capitalismo, soltou o seu grito de horror, e a céu aberto protestou: nós ainda não sabemos muito bem o que queremos, mas sabemos que não queremos esse governo, que é anti-governo; não queremos essa saúde, que é anti-saúde; não queremos essa educação, que anti-educação; não queremos esse transporte que é a negação do direito de ir e vir.

Nos últimos cinquenta anos, os palcos milionários, de luzes com efeitos especiais, e neles as madonas, peladas ou vestidas, contagiavam e anestesiavam o povo; as duplas caipiras eletrizavam as filhas do povo. E as praças do Brasil eram esse luxo só. De repente, o povo, sem chamamento, sem propaganda de televisão, sem palco milionário, sem madonas e sem duplas caipiras saiu às ruas, sem partido, sem ideologia, sem líder, sem lenço ou documento, descobriu que a praça é do povo e a ocupou e nela sentou praça, e a praça, morrendo de saudade desse povo, cansada de tanto esperar, voluptuosa, o recebeu como fêmea nova no cio.

E agora o Brasil descobriu que as caminhadas de protesto terrivelmente contra são muito mais fascinantes do que as madonas, peladas ou não, e até mais eróticas.

É bom lembrar que esses protestos ainda são apenas dos intelectuais, dos estudantes e de parte da classe média mais esclarecida. O que é risível é o governo e até a imprensa burguesa, não podendo reprimir o povo com violência, fala em baderneiros pontuais, como se a massa não fosse composta de todas as camadas sociais, como se quisessem uma passeata de protestantes marchando contrita para dar o último centavo aos malandros Edir Macedo e Valdimiro.

O pior ou o melhor ainda estão por vir. Ainda não saiu às ruas a massa fundamental, a chamada plebe ignara, sem lei, sem deus, sem pátria, sem estatuto, sem lenço, sem documento. Quando ela sair da periferia para o chão dos protestos, sai da frente, porque não sobrará tijolo sobre pedra nos palácios dos governantes. Pode estar perto a hora do acerto de contas, e, “quando chegar o momento/esse meu sofrimento/vou cobrar com juros, juro…”.

E é aí que mora o perigo, perigosíssimo. Essa turba desorganizada, sem causa, sem rumo, sem destino, pensando em resgatar a impagável dívida da classe dominante, pode estar abrindo caminho para a tirania, um aventureiro de direita.

Será que o Brasil insurgente dos protestos é apenas um desabafo, um grito de revolta ou é um grito pré-revolucionário?

O mestre Vladimir Ilithc Ulianov, o Lenin nos ensina que o estado revolucionário se conhece por dois fatores: quando o governo já não pode e o povo já não aguenta.

Quem vai nos responder isto é o poder dos acontecimentos.

O certo é que os dez anos de governo do PT estão sendo comemorados com o povo na rua – contra. Lula que conhece de perto a força desse povo que o fez presidente duas vezes, esse Lula vazou, cascou fora, sumiu, exalou, escafedeu-se, amoitou-se como pinto à rasante do gavião. Ele foi visto em um botequim na Alemanha. Para fugir do povo nem precisava ir esconder-se tão longe. Lula e o seu partido banalizaram tanto a ética que hoje o nome PT honra a própria corrupção.

Mas vamos dar uma espiada aqui em Goiás. Essa desgraçada e desoladora paisagem política é agora também pornográfica e obscena, pois foi parar até em rendez-vous, em resorts, isto é, em motéis de luxo e de lixo. O pior é que a farra, segundo dizem, foi paga com dinheiro público. Uma pouca vergonha ou vergonha demais para nosso estado. Se for verdade, o mandato está perdido. Se for mentira, o caluniador tem que ir para a cadeia, porque é infâmia demais.

Mas quem botou fogo na gasolina foi mesmo a deputada Iris Araújo. Numa reunião do PMDB, ela xingou o governador Marconi Perillo, xingou, xingou nhem, nhem, nhem, até morder a língua de ódio e descontrolou-se: “Marconi é chefe de quadrilha”– atirou apoplética.

Marconi veio na fumaça, referindo-se ao marido da deputada, o ex-prefeito Iris Rezende: “Chefe de quadrilha é quem se enriquece na política e hoje é dono de uma das maiores fortunas de Goiás. Eu abri os meus sigilos para a CPMI, relatada pelo PT, e ela não encontrou nada de errado. Ao contrário, o ex-prefeito Iris Rezende entrou na Justiça para proibir a quebra dos seus sigilos por parte da CPI da Assembléia Legislativa. Chefe de quadrilha é quem roubou do Estado nos escândalos da Caixego e do BEG. Chefe de quadrilha é quem trouxe a Delta para Goiás, fez contratos milionários com essa empresa e entrou na justiça para impedir que esses contratos sejam investigados. Chefe de quadrilha é quem não tem coragem de abrir os sigilos financeiros e prestar contas ao povo”.

Realmente, o ex-governador Iris Rezende é um homem rico, riquíssimo, dono de tanta terra que o sol faz horizonte em uma de suas fazendas no Mato Grosso. Mas não quer dizer que ela foi adquirida com dinheiro roubado do Estado.

Aqui, eu entro em defesa de Iris: na eleição de 82, quando ele se elegeu pela primeira vez para o governo de Goiás, sua campanha recebeu tanta doação que ele mesmo chegou a recusar algumas. Mesmo assim, houve muita sobra de dinheiro de campanha. Mauro Borges era presidente estadual do PMDB e se elegeu senador. E aí surgiu o primeiro desentendimento entre os dois, antes mesmo da diplomação. Mauro achava que a sobra de dinheiro da campanha pertencia ao partido, o PMDB. Mas as doações eram entregues sempre ao candidato e não ao partido.

Por isto, Iris entendia que essa sobra de campanha pertencia a ele. De uma vez, na casa de Orlando, irmão de Iris, próxima ao Lago das Roas, eu assisti a um diálogo ríspido entre os dois, um diálogo ou um monólogo, pois foi Mauro quem disse o diabo para o governador recém-eleito.

Entre a eleição e a diplomação, Iris foi ao Mato Grosso e, com a sobra do dinheiro da campanha, comprou essa fazenda de porteira fechada, tão grande que o sol faz horizonte dentro dela. Esse negócio não foi feito às escondidas, pois na época, todo mundo dentro do comitê da Praça Tamandaré sabia disto, e muitos deles estão aí vivos. Eu conheço mais duas fazendas de Iris: uma nos arredores de Baliza e outra em Guapó. Ambas por herança de seus pais, que eram muito ricos e deixaram bens ponderáveis. Tão simples, no começo de sua carreira política, Iris sempre passou por pobre, mas nunca foi.

No escândalo Caixego em que sacados cinco milhões de reais do Beg pelo então secretário de Governo, Otoniel Machado, irmão de Iris, e que, por isto, foi parar na cadeia, é gatunagem confessa, pois o dinheiro foi devolvido algum tempo depois. Otoniel era um médico simples que foi arrastado para a política e pagou caro, um preço que não devia. Não merecia ser tratado daquela maneira, um exagero da Polícia Federal.

Realmente o sigilo financeiro do governador Marconi Perillo foi aberto e vasculhado pelos seus inimigos mais ferozes, o deputado Odair Cunha, relator da CPMI e pau mandado de Lula. A CPI goiana pediu investigação dos contratos da empreiteira Delta com as prefeituras do PMDB e elas entraram na justiça para impedir a devassa. Iris também entrou na justiça para não abrir o seu sigilo financeiro.

Depois dos sopapos de Marconi, Iris apelou para Cachoeira, dando-lhe fé em artigo publicado aqui no DM no dia 11 de maio último, em que o bicheiro, a propósito de desagravar a mulher, ameaça o céu e a terra, prometendo sangria no governo. Iris disse que “a coisa mais pesada que já vi foi essa carta do Carlinhos Cachoeira. E o governador não disse nem bom dia”. Com a credibilidade que Iris confere ao bicheiro,só falta Cachoeira filiar-se ao PMDB, e sua ficha ser abonada pelo próprio Iris. Vai morrer de inveja Júnior Friboi. Mal Iris acabou de levar a sério as investidas do bicheiro Carlos Cachoeira contra o governador do Estado, e o Tribunal de Justiça bloqueia os seus bens por erro técnico em concorrência pública, quando prefeito de Goiânia. Uma coisa à toa, de pouca monta.

A omissão é o terreno mais propício à covardia. A omissão é crime muito mais grave do que a ação. Se o bicheiro Cachoeira sabe de falcatruas no governo, que as aponte logo, porque o seu silêncio é a confissão de conivência com elas. Desde quando saiu da cadeia que o bicheiro ameaça botar os podres dos governos no meio da rua. Primeiro, disse que era “a garganta profunda do PT”, e marcou até o dia de botar a boca no mundo. Logo, logo mijou na espoleta. Na verdade é um boquirroto que vive blefando. Mas agora, sabendo ou não, vai ter que falar, pois o governador já o interpelou judicialmente.

No mês passado, eu escrevi aqui no DM saudando a democracia brasileira, pois agora ela está mesmo consolidada, pois um condenado a mais de 40 anos de cadeia por de gatunagem e outros crimes morais vem em artigo assinado chamar um governador para troca-tapas no meio da rua. E não acontece nada. Uma lambança pra mais de metro. E os deputados do PMDB saudaram o artigo do bicheiro como o depoimento de um homem de bem. Ele pode até ser um homem de bens. Agora, o próprio Iris vem botar fé nas ameaças do bicheiro? Até tu, Iris?

Mas o que está mesmo conturbando, e conflagrando, chocando, e constrangendo, e deprimindo, e lameando esta desgraçada e desoladora política de Goiás são as calúnias assacadas à deputada Iris de Araújo nas redes sociais. Coisas impublicáveis, gravíssimas, onde se mistura o dinheiro público com a degradação mais vil da fraqueza humana. Meu Deus, meu Deus, que horror! Ainda bem que não deve ser verdade o que li. Se esses absurdos fossem verdadeiros, o mandato estaria comprometido pelo mais sórdido dos indecoros. Mesmo não sendo verdade, é melhor que d. Iris contenha-se na cozinha, onde é ícone de forno e fogão, porque decididamente a política não é a sua praia, não merece estar envolvida nas calúnias desse furdunço. É melhor voltar à igreja, às orações que confortam, que consolam e salvam.

(Carlos Alberto Santa Cruz, jornalista)