Em semanário, professor diz que Sintego boicotou a greve na rede municipal

Veja matéria publicada no Tribuna do Planalto:

 

Sintego boicota greve”, afirma professor

“Sem negociação, não sairemos daqui!”

Integrante do movimento grevista da rede municipal de educação, professor diz que manifestantes só deixarão Câmara de Vereadores depois que comissão de representantes for recebida pelo prefeito Paulo Garcia

Thaís Lobo Editoria de educação

Quase 3 mil servidores da educação municipal se reuniu na última quinta, 10, na Câmara de Vereadores para confirmar que a greve da rede municipal de ensino de Goiânia continua. Iniciada no dia 24 de setembro, a paralisação ganhou repercussão nacional depois da ocupação do local na última terça, 9. 

A categoria reivindica diversos benefícios, mas principalmente a manutenção da gratificação conhecida como Difícil Acesso, benefício ameaçado por um projeto de lei em tramitação na Câmara.

O movimento grevista não conta com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores do Estado de Goiás (Sintego). Pelo contrário. Os manifestantes afirmam que a entidade não os representa mais e por isso iniciaram um processo de mobilização que culminou com a criação de uma nova entidade sindical: o Simsed (Sindicato Municipal dos Servidores da Educação de Goiânia).
Por questões burocráticas, o novo sindicato tem sua legalidade questionada na justiça. Com isso, os trabalhadores da educação decidiram se reunir em torno de um comando de greve sem vínculo algum com os dois sindicatos e lutam agora pelo reconhecimento enquanto categoria.
Até o fechamento desta edição, na tarde da última sexta, 11, manifestantes e poder público municipal ainda não haviam chegado a um acordo sobre o fim da paralisação. Nesta entrevista exclusiva ao Escola, Hugo Alves Rincon, professor de Educação Física e um dos integrantes do comando de greve, comenta sobre o movimento, detalha os bastidores da greve e dá um recado claro à SME e ao prefeito Paulo Garcia.

Vocês votaram a favor da manutenção da greve e da ocupação da Câmara Municipal, mas a justiça determinou a reintegração de posse do local. Como vocês irão preceder daqui para frente?
Nós vamos continuar aqui [Câmara Municipal de Goiânia]. O oficial de justiça trouxe o documento de reintegração de posse, mas nós não iremos assiná-lo porque acreditamos que isso é uma forma de criminalizar o nosso movimento, falando que nós temos que desocupar a Câmara, dando a entender que nós somos invasores. E nós, na verdade, estamos aqui apenas para exigir agilidade nas negociações. Então, enquanto isso não for possível, continuaremos aqui.

Como está a mobilização da categoria e das escolas?
Algumas escolas e profissionais já davam sinais de que voltariam a trabalhar, mas a ocupação da Câmara Municipal foi uma virada de mesa. As escolas estão aderindo mais ainda ao movimento grevista, sem nem precisar irmos até elas. Os profissionais estão ligando e vindo até aqui [na Câmara] para apoiar a paralisação e a adesão agora tende a aumentar.
Muitas escolas que antes não estavam paradas, em solidariedade aos trabalhadores que aqui estão, começaram a aderir ao movimento. Então a tendência agora é o número de escolas aumentarem e, principalmente, o de participantes também. Com essa adesão crescente, muitas escolas municipais já estão ficando desfalcadas.

A legalidade do movimento grevista é questionada pelo governo municipal, que afirma que só irá negociar com o representante legal da categoria, que é o Sintego (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Goiás). Sem o sindicato apoiando a greve, como vocês articularam as assembleias e as mobilizações?
As convocações de assembleia aconteceram a partir da internet. Nós fizemos a primeira assembleia no dia 30 de agosto, motivados pelo projeto de lei enviado à Câmara Municipal, que propõe mudanças no Difícil Acesso. Foi a categoria organizada que discutiu na internet e formou o movimento.
Depois fizemos outra assembleia no dia 13 setembro e outra no dia 19, essa com indicativo de greve. Todas essas assembleias foram feitas esperando a abertura de algum canal de negociação. No dia 19, inclusive, achamos que esse canal seria aberto e por isso o indicativo não foi aprovado, e a greve não começou nesse dia. Como eles [Prefeitura de Goiânia e Secretaria Municipal de Educação] continuaram resistentes a nos ouvir, decretamos a greve no dia 24 de setembro.

E como ocorreu esse processo? Os representantes do Sintego participaram de alguma dessas assembleias?
Desde 2010 eu não vejo nenhuma assembleia geral da rede municipal de educação. Em Goiânia, o Sintego não nos representa até por conta das trapaças e manobras que a entidade fez em 2010. Desde essa época, há um grupo de trabalhadores da educação que realiza algumas manifestações e assembleias; então o movimento não morreu, ele continuou ativo com o grupo de profissionais que sobrou de 2010. Esse movimento continuou articulado e é por isso que, quando teve a retirada do Difícil Acesso, nós resolvemos realizar a assembleia no dia 30 de agosto. Em nenhuma assembleia teve a participação do Sintego. Nenhuma!

E como é possível fazer um movimento grevista sem o apoio do sindicato que, ao menos em teoria, representa a categoria?
O Sintego, na verdade, está boicotando o nosso movimento. A entidade está indo nas emissoras de TV e de rádios afirmando que é uma briga de sindicatos, sendo que as pessoas que fazem parte do Simsed – e que estão envolvidas no movimento – já falaram várias vezes no microfone e no carro de som que o Simsed não está conduzindo esse processo. Todos que estão participando não estão pelo Simsed, estão enquanto categoria.
Esse é o meu caso. Eu faço parte da coordenação do Simsed, mas sou professor de Educação Física e estou participando do movimento enquanto profissional da educação e todos os outros membros do Simsed também. E o que o Sintego está tentando fazer, por meio dos meios de comunicação, é desviar o foco da nossa luta dizendo que o que nós estamos querendo é romper com o Sintego e difamá-lo. E isso não é verdade. Nós estamos focados na nossa luta e o Sintego só está tentando nos sabotar.

Vocês estão exigindo um canal direto de diálogo direto com o prefeito. Por que esse encontro de negociação não pode ser com a secretária de Educação, Neyde Aparecida?
Antes da greve, nessa assembleia do dia 19 de setembro, que teve o indicativo da greve, a Secretaria de Educação divulgou que tinha marcado uma reunião com os participantes do movimento, mas esse encontro não aconteceu nesse dia. Isso já nos frustrou. Mas, na segunda, 23, a secretária Neyde Aparecida nos recebeu e deixou claro para nós que ia nos ouvir enquanto categoria; ela disse que ouviria as reivindicações, mas que, na verdade, ela e o prefeito atenderiam somente o Sintego. Nós apresentamos a nossa pauta de reinvindicações, como já havíamos apresentado várias outras vezes, e ela [Neyde Aparecida] foi totalmente intransigente, dizendo-nos que não tem como avançar em nenhum ponto dessa pauta.

Não houve nenhum avanço desde o início da greve?
Depois que fizemos a reunião com a secretária houve dois avanços. Nós exigimos que os trabalhadores com contratos temporários e aqueles em recesso recebessem o auxílio deslocamento, e depois que decretamos a greve, isso foi garantido. Mas esse pequeno avanço só aconteceu depois que decidimos pela greve, mas eles [Secretaria de Educação e Prefeitura de Goiânia] continuam intransigentes em não nos ouvir. E continuam falando que só estão abertos à negociação com o Sintego, sendo que já deu para perceber que essa greve e essa ocupação, esse movimento, não serão resolvidos por meio de negociações com o Sintego. A categoria não confia mais nesse sindicato e não aceita mais a entidade como representante. Nós estamos exigindo que essa negociação aconteça com a Comissão de Negociação do comando de greve.
A ocupação da Câmara Municipal pelos trabalhadores da educação causou polêmica. Alguns afirmam que os profissionais fizeram baderna, enquanto os manifestantes acusam a guarda municipal de violência. O quê, de fato, aconteceu?
A votação [do projeto de lei do Difícil Acesso] foi uma manobra, deu para perceber. O Clécio Alves [vereador/PMDB] ficou esperando outros dois vereadores que chegaram depois, à mando do prefeito [Paulo Garcia], para votar contra nós, porque nós estávamos vencendo a votação com a proposta do vereador Virmondes Cruvinel [PSD), uma emenda que nos favorecia. A partir do momento que percebemos essa manobra, a categoria ficou revoltada e começou a ocupar o plenário, foi um ato de revolta pelo que tinha acontecido.
Nesse momento, os vereadores foram para trás da mesa, que era protegida pela guarda municipal, e a única coisa que a categoria fez foi gritar palavras de ordem. Aqueles que chegaram mais perto da mesa foram atingidos com spray de pimenta, usado para dispersar os manifestantes, mas ninguém nem chegou a passar para a mesa. Foi uma forma de reprimir porque eles [vereadores] se sentiram acuados, pois não esperavam por aquilo. Ninguém esperava. Mas nós entramos para ocupar o plenário como um ato de protesto contra a clara manobra feita por eles. Ninguém agrediu os vereadores; a única coisa que fizemos foi entrar e gritar palavras de ordem.

Quantas pessoas, em média, estão acampadas na Câmara?
O número está variando bastante. Durante o dia, ficam 300 pessoas e, à noite, em torno de 150 a 200 pessoas.

Na quarta, 9, foi proibida a entrada de alimentos na Câmara para os grevistas. Como vocês estão lidando com essa situação?
Estamos fazendo “vaquinha” e compramos os alimentos. Ontem, eles tentaram nos intimidar e chamaram os policiais para não deixar entrar itens de alimentação, mas depois nos chamaram, nós fizemos a negociação e os alimentos foram liberados.

Vocês afirmam que vão ficar na Câmara até haver negociação com o governo. Há perspectivas de quando isso poderá acontecer?
Ontem [quarta, 9], fizemos uma reunião com os vereadores da base do prefeito. Inclusive, foi nessa reunião que eles garantiram que não iriam reprimir o nosso movimento e que iriam estabelecer o diálogo. Mas nessa reunião eles não trouxeram nada de avanços em relação às negociações com o prefeito. Os vereadores da base não conseguem trazer nenhuma proposta e ficaram nos enrolando.
Nós apenas conseguimos a garantia de que os manifestantes na Câmara não iriam ser reprimidos, que a força policial não iria ser utilizada, mas a pauta de reivindicações não avançou em nada. Esses vereadores falaram que o prefeito pode agendar alguma negociação, mas nós teríamos que desocupar o local e, claro, nós informamos que o processo deve se dar ao contrário: primeiro tem que haver a negociação para depois nós desocuparmos o local. Nós sabemos que não dá para confiar nessa proposta de sair para depois negociar. Sem negociação, nós não sairemos daqui!
Quais as expectativas sobre o fim da greve?
A expectativa é que o prefeito nos atenda. Já vieram os vereadores e alguns deputados afirmando que o prefeito está disposto a dialogar. Em algum momento ele vai ter que nos atender, porque a tendência é que o número de pessoas na ocupação aumente e ainda vai vir o final de semana e o dia dos professores e eles vão ver mais pessoas ocupando cada dia mais a Câmara. Nós acreditamos que com toda essa pressão não só dos trabalhadores da educação, mas de toda a sociedade, o prefeito nos chame para negociar. E nós vamos marcar a próxima assembleia somente após a negociação com o prefeito.
Quem é e o que faz?

Hugo Alves Rincon é graduado em Educação Física pela Universidade Estadual de Goiás (2007) e é especialista em Psicopedagogia Educacional pela Universidade Alfredo Nasser (2009). Atualmente é mestrando em Educação na Universidade Federal de Goiás e professor na rede municipal de Goiânia e Aparecida de Goiânia. Ele é coordenador do Sindicato Municipal dos Servidores da Educação de Goiânia (Simsed) e também integra o comando de greve da rede municipal em Goiânia.