Absurdo: prefeito médico de Goiânia cria condições para exploração de pacientes pobres

Reportagem de capa do jornal O Popular deste domingo revela mais uma faceta cruel da crise da Saúde Pública em Goiânia, na gestão do prefeito Paulo Garcia (PT) que, por incrível que pareça, é médico. Com o serviço público lotado pela ineficiência administrativa de Paulo, clínicas particulares se instalam na vizinhança das unidades de Saúde da Prefeitura e passam a explorar os pacientes, que não têm outra alternativa a não ser pagar pelo atendimento. O prefeito petista fecha os olhos à esta triste realidade.

Veja a reportagem completa:

Com serviço público lotado, clínicas aproveitam vizinhança

Em busca de uma melhor assistência a preços mais baixos que os encontrados na rede privada convencional, usuários do SUS migram das unidades básicas para centros instalados nas proximidades

Deire Assis

Na esteira das deficiências enfrentadas pelos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) em busca de assistência médica, clínicas particulares têm se instalado no entorno dos Centros de Assistência Integral à Saúde (Cais) e Centros Integrados de Assistência Médico-Saintário (Ciams). Nestes locais, os pacientes têm acesso a consultas médicas e exames a baixo custo, se estes forem comparados aos praticados pela maioria dos serviços de saúde.

Reportagem do POPULAR publicada na semana passada mostra que a espera por uma consulta especializada pode chegar a 14 meses e é maior quando a necessidade é por assistência nas áreas de oftalmologia, endocrinologia, ortopedia, entre outras. De acordo com estatísticas da Diretoria de Regulação, Avaliação e Controle da Secretaria Municipal de Saúde, 70 mil usuários esperam na fila por uma consulta especializada em Goiânia, onde são realizados 30 mil novos agendados todo mês.

No entorno do Cais do Jardim América, um dos que recebem maior demanda de pacientes do SUS, há várias clínicas que oferecem exames clínicos e de diagnóstico, bem como consultas médicas. Uma das clínicas, o Centro de Especialidades Médicas, pertence ao médico Bernardo Paula Neto, eleito vereador em Goiânia, pelo PSC, nas eleições de outubro do ano passado. Conhecido como Dr. Bernardo do Cais, o médico atende na clínica duas vezes por semana. Na fachada do centro médico, a inscrição: “Consultas populares”.

É o médico-vereador quem explica: “Consultas populares são aquelas oferecidas a preços mais baixos. A pessoa que pagaria em torno de 300 reais, 200 reais por aí, lá paga 80 reais. Aí sobra inclusive para o remédio”, diz. Bernardo do Cais admite que muitos pacientes que o procuram no consultório particular são pacientes também da unidade pública de saúde. “É bom também para o sistema, porque desafoga um pouco o Cais. O médico ganha pouco, mas ganha, e é bom para o paciente, que é bem atendido”, frisa.

Bernardo do Cais defende a tese de que muitas pessoas que buscam assistência na rede pública têm condições de pagar pela consulta. “O SUS é universal e não dá conta da demanda. Quem tem um mínimo de condições de arcar com esse custo, prefere pagar do que esperar a sua vez”, defende. O médico, após eleito vereador, diz que não deixou de atender no Cais, “compromisso que fez com seus pacientes”, afirma. Atende na unidade no período da tarde, quando não há sessões na Câmara. Só no Cais do Jardim América, conta, está há 24 anos.

Em épocas de epidemia de dengue, como a experimentada por Goiânia em 2013, a demanda de pacientes nas clínicas instaladas no entorno dos Cais, aumenta. É o que garantem secretárias de algumas delas ouvidas pela reportagem. Nesse casos, são pessoas que buscam inclusive a emergência na rede pública, mas devido à alta demanda dos Cais, acabam desistindo de esperar e arcam com as despesas de uma consulta particular.

Na quinta-feira da semana passada, conta o médico-vereador, havia atendido no plantão do Cais 20 pacientes até o fim da tarde. No consultório particular, conta, a demanda é variável, mas em média, atende dez pacientes por dia de trabalho.

Em torno só do Cais do Jardim América há cinco clínicas. Em uma delas, o paciente marca consulta com ginecologista, de um dia para o outro, a um custo de R$ 150. O valor inclui a realizado de ultrassonografia endovaginal e exame preventivo contra o câncer de colo uterino.

 

Doméstica se cansa e paga por consulta

Pelo menos cinco clínicas particulares estão instaladas também em volta do Centro de Assistência Integral à Saúde (Cais) do Setor Novo Horizonte, onde, semana passada, houve vários protestos de pacientes que denunciaram falta de médicos na unidade. Uma das clínicas pertence a um ex-médico do Cais, cardiologista, que conta hoje com uma clientela que também desistiu de tentar acompanhamento médico pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Uma de suas pacientes desde a época do Cais é a doméstica Maria de Lourdes Gregório da Mota Oliveira, de 59 anos. Ex-moradora da região, a mulher mudou-se para Aparecida de Goiânia onde, conta, passou a enfrentar ainda mais dificuldade para acompanhar de perto os problemas de coração. A alternativa encontrada foi arcar com o custo da consulta com o médico que a acompanhava na época em que se consultava no Cais do Setor Novo Horizonte.

“A gente tem que se virar para pagar senão quiser ficar passando mal sem assistência. Se eu tivesse que esperar pelo Cais, já tinha morrido”, queixa-se a doméstica, que tem rendimento de um salário mínimo mensal. Na semana passada, pelas suas contas, teria que arcar com um custo de 250 reais, que pagaria a consulta com o cardiologista ( 100 reais) e dois exames de diagnóstico, um eletrocardiograma (30 reais) e um holter (120 reais).

O desespero da mulher em busca de uma assistência mais ágil tem justificativa. Hipertensa, Maria de Lourdes teve um pico de pressão na semana passada, desmaiou e chegou a ferir a cabeça. “Tenho que me consultar com um neurologista também, mas esse vai ter que esperar. O salário não dá para tudo de uma vez”, explica. Na clínica, conta, ela já se consulta há dois anos. Outros dois anos ela foi paciente do médico no Cais do Setor Novo Horizonte.

Quem também desistiu de esperar por uma consulta com especialista no Cais do Setor Novo Horizonte foi a aposentada Maria Ferreira Justina, de 73 anos. “Há três anos eu pago particular, com muita luta”, diz. Uma vez por ano, pelo menos, a mulher passa por uma revisão pelo cardiologista, pagando 100 reais pela consulta. “Como os remédios para a pressão eu consigo retirar de graça na farmácia, aí já fica mais fácil”, conta.

 

Atendimento a 50 reais com ginecologista

Na semana passada, O POPULAR entrou em contato, por telefone, com várias das clínicas que se instalaram no entorno das unidades da rede básica de saúde do município de Goiânia. Numa delas, no Setor Finsocial, bem próximo do Centro Integral de Assistência à Saúde (Cais) localizado no bairro, a consulta com o ginecologista é oferecida a 50 reais. Se a paciente quiser fazer no mesmo lugar o exame preventivo de câncer de colo uterino, desembolsa 70 reais.

Na clínica, havia vaga para logo depois do feriado com médico que, segundo a secretária, atende também no Cais. Em outra clínica, perto do Cais do Novo Horizonte, a consulta com o cardiologista custava 90 reais e havia vaga para a mesma semana. Se o paciente fizer o eletrocardiograma na unidade, o preço sobe para 120 reais. O médico que trabalha na clínica, segundo a atendente, também faz parte dos quadros do Cais em frente.

Em outra clínica nas imediações do Cais do Novo Horizonte, são oferecidas consultas em praticamente todas as especialidades: clínico-geral; cardiologia; pediatria; ginecologia; dermatologia; otorrinolaringologia; urologia; oftalmologia; entre várias outras. Também de acordo com as atendentes ouvidas pelo POPULAR, a maior parte dos profissionais atende no Cais em alguns plantões.

De acordo com a Secretaria Municipal de saúde de Goiânia, órgão tem se “esforçado para suprir o déficit de profissionais médicos da rede pública de saúde na capital”. De acordo com o órgão, desde janeiro, 363 médicos entraram nos quadros da SMS. Destes, 201 são novos credenciados e 162 foram convocados por concurso público. Segundo o secretário municipal de saúde de Goiânia, Fernando Machado, o déficit de profissionais médicos na rede gira em torno de 15%.