Nova reportagem do Diário da Manhã revela mais trechos do livro-bomba de Tuma Jr. Veja

Leia reportagem publicada no Diário da Manhã sobre o livro Assassinato de Reputações, de Romeu Tuma Jr.

Paraíso dos grampos

Trechos do livro de Romeu Tuma Júnior, ex-colaborador de Lula, explicam como governo realiza grampos ilegais. Livro mostra como PT tratou morte de ex-prefeito Celso Daniel

WELLITON CARLOS

O Diário da Manhã publica hoje a segunda parte de uma reportagem que traz ao leitor o conteúdo do livro Assassinato de Reputações: um crime de Estado (editora Topbooks). O livro é sucesso de vendas no País, tendo a obra tornado-se best seller no site da amazon.com. A maioria das lojas não tem mais a primeira leva de obras, mas promete entregar novas remessas de livros para vendas.

A publicação escrita por Romeu Tuma Júnior trouxe à tona uma agenda de questões políticas. Duas delas foram abordadas na reportagem publicada ontem: a relação do ex-presidente Lula com a ditadura e a perseguição ao então senador Marconi Perillo (PSDB), que teria alertado Lula quanto ao mensalão.

Na edição de hoje, o DM traz trechos do livro que tratam da instalação de um Estado policial no Brasil. Conforme a publicação, através das denúncias de Romeu Tuma, existiria uma ação da Polícia Federal aos moldes da KGB e polícia americana (CIA e FBI) durante a Guerra Fria. E dentro do governo, mais especificamente na Secretaria Nacional de Justiça, onde Tuma trabalhava, existia ou existe uma fábrica de dossiês e denúncias contra adversários políticos.

Em favor do projeto de perpetuação no poder do PT, foram criadas metodologias de ação como o Método Científico Cronológico Dedutivo (MCCD) e Procedimento Criminal Diverso (PCD) para atender aos interesses políticos.

Uma das metas do grupo que estaria no poder seria satanizar adversários. Por isso, a PF teria plena liberdade de marketing e atenção aos modelos midiáticos. Não seria à toa, por exemplo, a criação de operações com nomes adequados às manchetes da imprensa.

Tuma Junior expõe todo o organograma do poder no Estado. Neste sentido, ele disseca as participações de Márcio Thomaz Bastos, José Dirceu, Antônio Palocci, Franklin Martins e Gilberto Carvalho no grupo.

Outras denúncias graves de Romeu Tuma Júnior dizem respeito ao poder de grampo. Praticamente qualquer pessoa pode ser alvo das ações da polícia política brasileira.

Tuma explica como os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) foram grampeados a partir da maleta francesa. Ele denúncia que Protógenes Queiroz, Dadá e outros grampearam todos os ministros do STF.

E o mais grave: Tuma revela novos detalhes do Caso Celso Daniel, prefeito de Santo André que foi sequestrado e assassinado prestes a tornar-se um importante cardeal petista na campanha vitoriosa de Lula à presidência. Salienta-se os elogios do autor ao advogado Luiz Eduardo Grenhalgh que teria agido para impedir que o assassinato chegasse ao comando petista. Conforme Tuma, a ação de Grenhalgh seria “impagável”.

O DM reitera a existência deste espaço democrático aos envolvidos ou citados na obra do ex-delegado e advogado Romeu Tuma Júnior.

Não se considera aqui suas versões como verdades absolutas. Por isso mesmo, o jornal tentou acesso ao ex-presidente Lula, em seu instituto, para que apresentasse o contraditório.

O jornal tentou acesso também a outros citados, que preferem ignorar as provas e fatos apresentadas no livro. Fora os petistas que já estão presos, o DM buscou cada um dos envolvidos citados na reportagem. Permanece aqui, desta forma, o interesse necessário e democrático de confronto das versões, conforme nos garante a Constituição.

Trechos da obra Assassinato de Reputações: Um Crime de Estado
CAPÍTULO 8

TODA A VERDADE DO CASO CELSO DANIEL

(…) tudo começou quando eu era o delegado Seccional Sul da cidade de São Paulo e passei a investigar a máfia dos fiscais, descoberta em 1998, na gestão do prefeito Celso Pitta. Vereadores e funcionários municipais foram acusados de cobrar propinas de ambulantes e comerciantes nas antigas adminstrações regionais (as atuais subprefeituras). (…)

As duas batatas quentes serviam nas minhas mãos: o corpo do Celso Daniel foi encontrando em minha área. E quem comandou seu assassinato tinha fugido de uma cadeia em Guarulhos e pousado de helicóptero também na minha jurisdição. Eu assumia então plena consciência de que era um para-raios, agregando, sob meu poder, a futura cruz e a espada contra o Partido dos Trabalhadores.

Na cena do crime, ao lado do corpo do Celso Daniel, as cápsulas disparadas, como ocorre com as armas automáticas, não condiziam, em seus locais de queda, com a direção dos disparos. Mandei fazer uma retificação da perícia. (…)

Tudo indica que Celso Daniel morreu porque o achaque do PT contra os empresários de Santo André começou a aumentar. Os empresários não aguentavam pagar essa sobretaxa. Celso ficou no meio e sobrou para ele.

(…)

O Celso era um cara que tinha esquema montado, institucionalizado pelo partido, então os desvios de recursos da prefeitura de Santo André eram canalizados para o partido. O próprio Gilberto Carvalho me confessou isso no dia do meu sincericídio.

Eis o que eu acho o que aconteceu: o Celso, alguns assessores e secretários haviam tido algumas brigas, porque quando ele foi convidado pelo Lula para ser coordenador de campanha e chefe do financeiro ele sairia candidato a senador. Ficou uma dúvida se ele sairia ou não, pois achavam que se ele se dedicasse a uma campanha de senador poderia atrapalhar na arrecadação e na articulação, na coordenação da campanha.

Até hoje penso nas razões que levaram ao meu afastamento das investigações. Certamente, o governo do Estado à epoca não queria que eu me destacasse (…)

O caso Celso Daniel sempre foi cercado de muitos mistérios e de algumas especulações. Veja, por exemplo, o fato de a cúpula da polícia ter designado a doutora Elizabeth Sato para presidir o segundo inquérito.

(…) Hoje já promovida à Classe Especial, ela dirige o DHPP e tem uma estrutura fantástica para – agora sim, e se deixarem – reinvestigar o caso. Seria uma forma dela desmentir todas as especulações que circulam, até por email, aludindo a um possível parentesco distante com o ex-presidente Lula, para que ela não fizesse nenhuma investigação isenta. Até hoje o Greenhalgh não respondeu a uma simples pergunta que lhe fiz, na época, sobre o significado do nome da empresa de transporte Rotedali, pivô de um possível desententimento: se era a junção das iniciais de Ronan, Tereza, Daniel e Luiz Inácio, possíveis sócios. Ele prometeu verificar, mas nunca mais tocou no assunto”

CAPÍTULO 9

AS PROVAS DO GRAMPO ILEGAL CONTRA OS MINISTROS DO STF

A autointitulada progressista, a dita “mídia independente” verberou como ninguém o absurdo daquela capa da revista Veja, afirmando que o STF, em particular o ministro Gilmar Mendes, foi grampeado durante a Operação Satiagraha. O grampo custou o cargo ao direitor da Abin, Paulo Lacerda, expelido para uma assessoria “aspone” em Portugal. Como Moisés ensandecido, os chamados blogueiros sujos, sempre patrocinados no velho esquema – pela Caixa Econômica Federal ou pelo Banco do Brasil –, levantaram um chavão de que a capa da Veja constituía um “grampo sem áudio”.

Segue a verdade do caso: não só Gilmar Mendes foi grampeado como também todos os outros ministros do STF. O grampo foi feito com uma maleta francesa, empregada para rastrear celulares em presídios. O que ninguém sabe é que essa maleta também derruba os sinais das operadoras, e toma o lugar delas. Ela ocupa o espaço não só das operadoras como também das estações repetidoras de sinais de celulares. Com ela, é possível identificar números de celulares, seus IDs, rastreá-los, localizá-los milimetricamente, ouvir e gravar suas conversas. Protógenes, Dadá e seus gansos e agentes fizeram uso dessa maleta para grampear todos os ministros do STF, e o Lacerda pagou o pato. O que se segue é uma carta que recebi do meu velho amigo, delegado Edson Oliveira, ex-chefe da Interpol no Brasil, onde se explica o modus operandi – inclusive a grave notícia de que a denúncia gerou uma inquérito-fantasma, ou seja, iniciado e encerrado sem registro nos livros cartorários e sem envio para a Justiça.

Já antecipo: alguém há de anunciar que o Edson já foi preso, sem entrar no mérito de tratar-se ou não de uma injustiça. É a velha tática dos contrariados, que sempre preferem as meias verdades ou até falsidades. Baseio-me, como sempre fiz em minha vida pessoal e profissional, na tese de que para mim importa a idoneidade do testemunho e não só da testemunha, apesar de reputar ao Edson absoluta idoneidade moral. No campo das provas e das testemunhas, o que se requer é testemunho idôneo. (…)

Segue-se a carta:

Caro Romeu: recebi uma informação no final de 2008, por volta do mês de outubro, dando conta de que a escuta telefônica no Supremo Tribunal Federal teria sido feita por um agente federal, lotado na Superintendência do DPF no Rio de Janeiro, o qual, na ocasião da realização do grampo, estaria cumprindo missão em Brasília. Essa informação me foi passada pelo presidente do Sindicato dos Policiais Federais no Rio de Janeiro, o agente Telmo Correia. (…)

Durante o levantamento feito, ficou evidente que a escuta no STF foi realizada com a utilização de equipamentos de gravação digital sem fio, de origem francesa, produto de um acordo entre o governo da França e o do Brasil.

Além disso, a maior parte dos componentes da equipe que trabalhou nessa escuta e em outras, legais ou não, fez curso de especialização nessa área na França. (…)

Resumo da ópera: após a denúncia do Edson, a PF fingiu proceder uma investigação com a instauração de um inquérito, que, ao que tudo indica, nunca existiu para valer. O Edson foi perseguido por denunciar o caso, aliás, caminho comum de quem busca a verdade nos dias atuais, onde o que era regra virou exceção e vice-versa. (…)

O que aconteceu com Edson, de resto ex-superintendente da PF carioca e ex-direitor da Interpol no Brasil, foi o mesmo sucedido a todos aqueles que ousaram investigar os abusos de um governo que tenta se apoderar do Estado a qualquer custo, preço e modo, atentando contra todos os princípios básicos e elementares de um Estado Democrático de Direito.

Voltemos agora à tecnicalidade do grampo ilegal contra o STF. Todos os ministros do Supremo foram monitorados, quer através de escuta dos telefones móveis com a utilização da maleta móvel, quer por via de implantação física, em seus computadores, de aparelhos de escuta ambiental. Todo o aparato foi tocado com a participação de arapongas, que prestavam serviços de segurança e limpeza aos próprios gabinetes dos ministros. E notem a ironia: alguns desses arapongas eram empregados no STF para garantir a segurança de nossa Suprema Corte contra escutas, e estavam vinculados aos agentes que operavam a Satiagraha!