Indignado, João Lemes acusa deputados de não saberem o que estão votando só quando é interesse deles

Habitualmente comedido em seus artigos, o editor de fechamento de O Popular, João Lemes, revela indignação no seu texto desta segunda na página de opinião.

Para ele, tanto o presidente da Assembleia, Helder Valin, quanto os demais deputados estaduais abusam da opinião pública ao alegar que “não sabiam” da tramitação e aprovação de projetos que contemplam os seus interesses pessoais e contrariam a sociedade.

 

Leia o artigo de João Lemes:

 

A amnésia dos deputados

 

Já se tornou comum ouvir os deputados estaduais de oposição – e mesmo de alguns da situação – justificativa pouco plausível para explicar os diversos projetos e resoluções aprovados que só trazem benefício a eles próprios ou servem aos interesses corporativos da Assembleia Legislativa: não tinham conhecimento do que estava sendo votado. Acusam ainda a falta de transparência na tramitação das propostas nas comissões e m plenário.

A mais recente “distração” ocorreu na aprovação de resolução que cria cargos e faz adequações em vencimentos para diretores e outras funções, revelada com exclusividade pelo POPULAR no dia 4. A medida garantiu para alguns supersalários que superam R$ 40 mil.

Não foi o único momento de descuido. A história da Assembleia é marcada por várias distrações que acabam redundando em aprovação de matérias de interesses dos deputados ou do governo, que tem maioria na Casa, mas de pouca relevância para a sociedade.

Em 2011 resolução aprovada na surdina criou 1.616 cargos comissionados no Estado. Quando o escândalo veio a público, a justificativa dos parlamentares foi a mesma: não tinham conhecimento do que foi votado.

Pelo mesmo caminho passou em 2010 o projeto que alterava o limite de alunos por sala de aula; a mudança, em 2011, no regimento da Casa que acelerava a tramitação de matérias do governo; e, em dezembro, projeto que garantia o pagamento de salários extras para os deputados.

Os parlamentares alegam que o número de projetos que tramitam na Assembleia é grande, o que tornaria difícil o controle do que é votado. Justificativa pouco convincente principalmente se for levado em conta a estrutura disponível para nos gabinetes.

Além do salário considerado acima da média dos demais trabalhadores, os deputados contam com ampla equipe de auxiliares, verba indenizatória para gastos inclusive com assessorias técnicas.

É de se supor que está entre as tarefas desses assessores informar seus assessorados sobre o que está sendo votado. É redundante, mas sempre bom lembrar que o deputado é eleito para elaborar leis e fiscalizar o Executivo naquilo que é de interesse da sociedade.

Na linguagem do futebol, a distração significa muitas vezes levar uma bola entre as pernas. Para quem constrói a jogada representa um lindo lance. Para quem leva, pode ser falta de habilidade naquilo que se faz ou pura desatenção. No política, o que estaria faltando aos deputados para não levar tantas bolas entre as pernas?

Interessante é que a amnésia dos deputados quase sempre acontece em matérias que beneficiam eles próprios ou ao corporativismo da Casa que representam. Nunca se esqueceram, por exemplo, de repassar todos os aumentos de salários e outros benefícios aprovados na Câmara dos Deputados.