Em O Popular, Cileide Alves pede mais gestão e menos política nos governos

Em artigo neste domingo no Popular, a editora-chefe do jornal faz uma crítica ácida aos gestores no Brasil.

Ela pede menos política e mais gestão.

Para Cileide, “se tivessem de passar por uma prova de meritocracia a grande maioria dos prefeitos, os governadores e a presidente da República e suas equipes não seriam aprovados, já que não batem as metas com as quais se comprometeram em suas campanhas eleitorais”.

“Isso é desanimador”, conclui ela.

 

Veja o artigo na íntegra:

 

Política máxima, gestão mínima


O Brasil tem terra agricultável em abundância, água em grande quantidade e já desenvolveu tecnologia para aumentar a produtividade do campo. O mundo necessita cada vez mais de alimentos, em especial países como a China e vários africanos, mas, paradoxalmente, o Brasil não consegue avançar no mercado mundial.

As dificuldades brasileiras aparecem nos indicadores econômicos: queda no índice de competitividade, de logística, e no do crescimento econômico – o País perdeu 25 posições no ranking mundial de crescimento econômico. As imagens de quilômetros de filas de caminhões nas imediações dos portos, as estradas esburacadas, os aeroportos lotados e as obras inacabadas, como a Ferrovia Norte-Sul, já fazem parte da paisagem brasileira.

Mas há ainda outra enorme dificuldade, essa bem menos tangível. A falta de profissionais qualificados para enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente. Para o engenheiro Marcelo Fava Neves, professor da USP que proferiu palestra semana passada em evento promovido pelo POPULAR e pela Federação da Agricultura do Estado de Goiás (Faeg), para analisar o PIB, o pior indicador do País é na área de pessoal.

A baixa qualificação das pessoas e os problemas de infraestrutura podem ser debitados na mesma conta: a ineficiência da gestão pública. “Esse é nosso maior problema”, disse Marcelo Fava. Focados em suas guerras políticas particulares e em ações meramente eleitoreiras, governos federal, estaduais e municipais não se preocupam com a eficiência da gestão.

A tão sonhada melhoria da educação pública está presa em um discurso político: eleitoreiro da parte dos gestores ou ideológico da parte das entidades ligadas aos professores. Assim os jovens chegam cada vez mais despreparados ao mercado de trabalho. Privados de conhecimentos técnicos para exercer suas profissões e escassos conhecimentos de matemática, sem saber escrever nem compreender o que leem e sem noções básicas de ciência, história e geografia, ou seja, sem conhecer e entender o mundo.

Um dos indicadores selecionados por Marcelo Fava dá bem a dimensão da distância entre a formação da mão de obra e as necessidades do País de aumento de sua produção e, consequentemente, de seu PIB: a renda dos trabalhadores da indústria cresceu numa velocidade bem superior à do crescimento da produtividade desses trabalhadores.

Se tivessem de passar por uma prova de meritocracia a grande maioria dos prefeitos, os governadores e a presidente da República e suas equipes não seriam aprovados, já que não batem as metas com as quais se comprometeram em suas campanhas eleitorais.

Se para crescer o país depende da eficiência dos gestores públicos, é alta a probabilidade de o País continuar exatamente onde está. Ou seja, não precisa ser nenhum visionário para saber que os problemas atuais tendem não só a continuar como a se aprofundarem, pois os gestores continuarão a se dedicar só à política em detrimento da administração. Isso é desanimador.