Más condições de trabalho e falta de plano de carreira fazem médicos abandonar rede municipal

Mais de 200 médicos já abandonaram a rede municipal de saúde este ano. O que agrava o caos na saúde que o prefeito Paulo Garcia (PT) não consegue conter desde o ano passado.

Veja a matéria do jornalista Cleomar Almeida, de O Popular, e entenda o assunto:

 

Programa tira médicos da capital
Iniciativa do governo federal oferece pós-graduação para profissionais que forem atuar no interior

 

Mais de 200 médicos da rede pública municipal de saúde de Goiânia pediram demissão este ano, agravando o problema da falta de atendimento à população. Desse total, mais de 100 trocaram os consultórios da Prefeitura, muitas vezes para correr das más condições de trabalho e sem perspectivas de carreira, pelo Programa de Valorização do Profissional de Atenção Básica (Provab), uma iniciativa do governo federal que visa levar os profissionais recém-formados para o interior do estados. Os dados foram repassados pelo secretário municipal de Saúde, Fernando Machado.

Com a voz carregada de indignação, o porteiro Severino Cavalcante, de 65 anos, teme enfrentar muito mais dificuldades para conseguir atendimento, com a debandada de médicos para fora da capital, que, por outro lado, ainda sofre com unidades de saúde superlotadas. Ele é portador de diabetes e procurou esta semana atendimento no Programa de Saúde da Família do Jardim Primavera, na Região Noroeste de Goiânia, uma das mais carentes da capital, mas lá só viu bagunça, cadeiras amontoadas no corredor da unidade, aparentemente abandonado e com as paredes de fora marcadas por pixação. Não havia nenhum médico. “Essa brincadeira de falta de médico já tem muito tempo”, ironizou ele, para acrescentar: “Luto para conseguir atendimento, e não consigo. Não posso ficar nessa situação. É muito desgastante e, enquanto isso, só pioro.”

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) conta com 1,8 mil médicos, dos quais 1,2 mil são concursados e 600, comissionados, de acordo com Machado. Até o momento, a pasta conseguiu repor uma minoria, já que ainda tem um déficit de 199 profissionais e o maior buraco (68%) está nos Centros de Atendimento Integral à Saúde (Cais) e Integrado de Assistência Médico Sanitária (Ciams) da capital (veja quadro nesta página).
Com a divulgação com Provab, que oferece pontuação adicional de 10% nos exames de residência médica, conforme resolução da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), a SMS perdeu 76 médicos só dos 363 contratados em janeiro.

Para ter uma ideia, um médico que trabalha na estratégia de saúde da família recebe entre R$ 7,8 mil a R$ 8,7 mil e tem de cumprir 40 horas semanais. Seu vencimento é só de R$ 2,1 mil, sendo o restante de gratificação. Já os aprovados no programa do governo federal têm direito à pós-graduação e ainda recebem bolsa no valor de R$ 8 mil mensais. No total, 201 profissionais trabalharão nas unidades básicas de 77 municípios goianos, mas só 4 deles em Goiânia.
Segundo o titular da SMS, o bônus de 10% do Provab para aprovação na residência médica ficou mais atrativo que o dinheiro. “O mercado paga mais para especialista do que para generalista”, observou ele, pontuando que, no setor privado, um especialista ganha, em média, mais de R$ 20 mil para cumprir a mesma carga horária de outro que trabalha na rede pública. “É bem mais que o dobro”, comparou Machado.

CICLO VICIOSO

Apesar de ter como objetivo melhorar o atendimento médico sobretudo fora das capitais e dos grandes centros urbanos, o Provab vai resolver apenas parcialmente o problema da falta de profissionais no interior dos estados, na avaliação do presidente do Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego), Leonardo Reis. Se as péssimas condições de trabalho não conseguem manter o médico nem na capital, por exemplo, o programa do governo federal também “não vai fixas médico no município do interior”, acrescenta ele. “É uma forma paliativa. O caminho não deve ser médico ir para o interior para, depois, se especializar. Pelo contrário, ele deve se especializar antes de ir para o interior.”
Vice-presidente da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP), Maguito Vilela, prefeito de Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital, defende a busca de médicos no estrangeiro. “O mercado é escasso”, acentuou. O Conselho Regional de Medicina (CRM) discorda (leia reportagem nesta página).

Retrato

Rede pública municipal
■ Total: 1,8 mil
■ Concursados: 1,2 mil
■ Comissionados: 600
■ 92% da rede está coberta, 8% de carência.
■ 200 pedidos de demissão na rede municipal de saúde este ano
■ Mais de 100 médicos trocaram a rede municipal pelo Provab
Faltam:
■ 125 médicos (88 clínicos gerais e 37 pediatras) nos Cais e Ciams.
■ 22 nos centros de saúde da família
■ 52 nos ambulatórios
Médicos cadastrados no Cremego
■ Total: 10979
■ Estão em Goiânia: 6624
■ Estão nos 245 municípios do interior do Estado: 4355
Fonte: SMS e Cremego