Grupo JBS, de Júnior Friboi, amplia império e estende tentáculos sobre a mídia

*Reportagem publicada no site do jornalista Luis Nassif

Dos bois nasceu o hambúrguer, que gerou os sabonetes, cremes, detergentes, o leite e o requeijão, o banco, os investimentos em papel e celulose, operações bilionárias em quatro continentes e, desde a quarta-feira 20, o principal canal de tevê especializado em agronegócio do País. Quer mais? A gigante mundial da carne bovina, a holding brasileira J&F, não parece ter dúvida: a resposta é sim. O desempenho das ações da companhia na Bolsa de Valores, em baixa desde o lançamento em 2007, indica, porém, que o mercado não acompanha o mesmo otimismo.

Com o crescimento econômico e a inclusão social nos países emergentes, nada parece impossível à maior empresa de processamento de carnes do planeta, o frigorífico JBS. No lance mais recente, rumo à diversificação, a companhia presidida por Joesley Batista comprou o Canal Rural do grupo gaúcho de comunicação RBS, dono do diário Zero Hora, de Porto Alegre, e das transmissoras da Rede Globo no Sul do País. O valor da transação não foi divulgado oficialmente. Parte da mídia fala em 40 milhões de reais.

No conglomerado de 50 marcas, a emissora terá grande potencial de crescimento, dizem os novos donos, e se encaixa perfeitamente na estratégia da companhia, uma das líderes do agronegócio nacional. Especializado na transmissão de leilões de gado, o Canal Rural “conversaria com um público de 110 milhões de telespectadores”, diz o comunicado, com boa dose de exagero.

Novata no mundo das comunicações, a J&F surgiu como um abatedouro de bois na cidade goiana de Anápolis. A indústria de cosméticos e produtos de limpeza Flora faz parte do seu portfólio de investimentos, e reúne as marcas Minuano, Alhany, Neutrox, Francis e Ox. No mercado financeiro, o grupo criou o Banco Original, dirigido por Henrique Meirelles, ex–presidente do Banco Central e integrante do conselho consultivo da holding. A instituição financeira atravessa, por sinal, um processo de reestruturação com o objetivo de ampliar sua atuação para além das fronteiras dos negócios agrícolas.

Em dezembro de 2012, foi inaugurada a primeira fábrica da Eldorado Brasil Celulose, criada em sociedade com os fundos de pensão Petros (dos funcionários da Petrobras) e Funcef (da Caixa Econômica Federal). A empresa de alimentos Vigor pertence à holding desde 2009, e veio no pacote de aquisição de um forte concorrente, o Grupo Bertin.

Em menos de uma década, José Batista Sobrinho, que iniciou o negócio em 1953 com um açougue, viu o frigorífico passar da posição de líder nacional a líder mundial, e ganhar fôlego para ampliar o leque de produtos. O grupo foi um dos “campeões nacionais” escolhidos pelo governo na lógica de uma política industrial interessada em criar grandes players globais em setores estratégicos. O frigorífico saltou de uma receita líquida anual de 3,1 bilhões de reais em 2004 para 54 bilhões em 2012, segundo o balanço fechado até o mês de setembro.

Até hoje, a companhia seguiu uma estratégia considerada agressiva pelos analistas, baseada na aquisição de várias empresas no Brasil e no exterior, e apoiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como financiador e sócio. A instituição tem hoje 23% do capital da J&F, participação que era maior antes da compra de uma parcela correspondente a 7% do J BS pela Caixa Econômica Federal, em 3 de janeiro deste ano. No total, desde 2008, o BNDES emprestou 7,5 bilhões de reais ao J BS.

O J BS não foi o único do setor a ser beneficiado pelo banco federal. O Marfrig, o Minerva e o Bertin também receberam apoio, mas o crescimento mais forte da companhia goiana em relação aos concorrentes teria gerado uma distorção no mercado, apontam especialistas. O segundo frigorífico mais forte, o Bertin, passou por dificuldades financeiras e acabou comprado pelo.) BS em 2009, negócio em análise no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Outra companhia relevante que acabou em poder da família Batista é o Frigorífico Independência, afetado por dificuldades financeiras. “O setor é altamente desafiante até mesmo para os grandes. Hoje vemos o Marfrig em dificuldades, o que cria o risco de o JBS crescer ainda mais”, diz José Vicente Ferraz, diretor-técnico da Informa Economics FNP Além dos percalços provocados pela variação de preço da matéria-prima, o setor é suscetível a crises econômicas e de imagem. Neste momento, por exemplo, a cadeia produtiva tem sua credibilidade afetada na Europa por causa da descoberta de que frigoríficos misturaram carne de cavalo à bovina em proporções acima do permitido.

A companhia tenta sair imune ao escândalo, depois de a Nestlé ter acusado uma subfornecedora de seu escritório comercial na Bélgica de vender carne com traços de DNA de eqüinos em nível proibido pela legislação. O J BS suspendeu todos os contratos com a fornecedora e comunicou não comercializar mais produtos europeus até que a confiança no sistema de fornecimento seja reestabelecida.

Especialistas estimam que o J BS represente 25% do mercado brasileiro de processamento de carne bovina, o que não configuraria um oligopólio, na opinião de analistas, que enumeram as vantagens do fortalecimento do JBS para o combate à informalidade. “Não existia nada de bonito no mercado tradicional de frigoríficos”, diz John Wilkinson, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. “A consolidação aumentou o controle sobre o setor, permitiu que ele ganhasse qualidade e importância na economia.”

Embalado pelo consumo em alta nas camadas mais pobres da população, o setor não conseguiu fortalecer a sua capacidade de exportação. Os volumes vendidos de carne e derivados bovinos no exterior caíram de 1,4 milhão de toneladas para 1,2 milhão em 2012, reflexo do dólar barato que tornou os produtos brasileiros menos competitivos.

Apesar do crescimento dos ganhos, o valor do grupo na Bolsa não evolui na mesma velocidade. Ao contrário. As ações foram lançadas na BM&F Bovespa em 2007 por 8 reais. Na quarta-feira 20, eram cotadas a 7,16, após um período de baixa ainda mais acentuada, provocada por dois anos seguidos de prejuízos financeiros, de 293 milhões, em 2010, e 75,7 milhões de reais, em 2011.0 lucro líquido nos primeiros nove meses de 2012, de 700 milhões de reais, contudo, indicaria uma reversão da má fase, ancorada principalmente na ampliação da capacidade de abate animal.

O desempenho 110 mercado de ações atrai desconfiança de investidores na consistência da expansão global. Há quem aponte uma internacionalização exagerada. Em resposta, o J BS decidiu vender seus ativos argentinos e suspender outros projetos 110 país vizinho para evitar mais prejuízos, causados também pelas fortes estiagens 11a região.