[Artigo] Piada de salão

Helvécio Cardoso*

A mais recente piada posta a circular na praça é a fantasiosa candidatura de Paulo Garcia ao governo do Estado em 2014. Segundo a boataria corrente nos meios políticos, Paulo não apenas será candidato em 2014 como, de resto, terá incondicional apoio da presidente Dilma Rousseff a esta tresloucada aventura.

Suponho que gente do PMDB anda espalhando esses boatos. É de todo conveniente ao Irismo que Paulo Garcia se candidate a governador. Com isso, o PMDB retomaria a prefeitura de Goiânia, ficando com ela todinha para si, banindo de á os indesejáveis petistas. Partindo da premissa de que só o PMDB teria condições de derrotar Marconi, isto acontecendo o PMDB tria o controle dos mais fortes bastiões do poder político em Goiás. Sem ter, ai que bom!, que dividi-los com o PT.

Presidente Dilma Rousseff: seu nome é indevidamente utilizado por articuladores de Paulo Garcia
Presidente Dilma Rousseff: seu nome é indevidamente utilizado por articuladores de Paulo Garcia

A crença peemedebista não é de todo equivocada. Ainda que com o apoio ostensivo de Dilma, as chances de Paulo Garcia eleger-se governador disputando contra Iris e Marconi é nenhuma. Daí a plausibilidade de terem os peemedebistas espelhado este boato. Quem sabe o boato não estimule o prefeito a se candidatar? Só o Sombra sabe da vaidade que vai pelos corações humanos!

Os boateiros, contudo, não têm uma lúcida compreensão da correlação de forças em Goiás, mesmo dentro do PT. Se o PT tiver mesmo candidato a governador em 2014, o nome dele será Antônio Gomide, o prefeito de Anápolis.

Ao contrário de Paulo Garcia, o prefeito petista de Anápolis é um homem de decisão firme, que vem realizando uma administração muito bem avaliada. Ao contrário de Paulo, o prefeito Gomide não é refém do PMDB, que, em Anápolis, há muitos anos foi reduzido a pó de traque.

O PT goiano cinde-se em duas grandes alas. Uma, liderada por Pedro Wilson e Marina Sant’Anna, é aquela em que milita Paulo Garcia. A outra, liderada por Rubens Otoni é a e Antônio Gomide, que por sinal é irmão do deputado federal. A ala de Pedro Wilson sempre teve supremacia em Goiânia, mas são os irmãos Gomide que controlam as seções interioranas do PT. Indo diretamente ao ponto: São os irmãos Gomide que têm o pode real, dentro do PT goiano, de indicar candidato a governador, e não o PT de Pedro Wilson.  Quanto aos candidatos, um pelo outro, Gomide é mais competitivo do que Paulo.

Esse papo de que Dilma apoiaria Paulo Garcia é furado. Como todo político realista, a tendência de Dilma é compor com quem tem força em nível regional, não o contrário. Quem não conhece o PT por dentro pode apostar que Dilma pode impor, manu militari, o nome de Paulo. Dificilmente uma solução de força seria bem sucedida. De mais a mais, os Gomide poderiam sempre solicitar a intervenção de Lula. A ala de Pedro Wilson representa, em Goiás, os interesses de Zé Dirceu. O Zé que vai tirar férias na colônia Penal. Os Gomide, por sua vez, estão fechados com o lulismo ortodoxo.

Resumo da ópera: o buraco é mais embaixo.

Já que estamos especulando, não custa nada desenvolver uma outra linha de raciocínio. Supondo que os irmãos Gomide, essas cobrinhas criadas do PT, tenham uma visão estratégica mais abrangente do que manjados estrategistas da oposição goiana, em geral estúpidos, pode ser que a eles interessem uma candidatura de Paulo Garcia, agora. Seria uma forma de queimar um potencial rival para 2014.

Nenhuma candidatura petista a governador tem chances reais de sucesso em 2014. Mas, em 2018, Gomide pode ser um candidato fortíssimo se, depois de encerrar seu segundo mandato, souber andar pelo Estado arregimentando forças. Em 2018 não terá nem Marconi e nem Pela Frente. Terá, talvez, que enfrentar Vanderlan Cardoso ou Júnior Friboi, notórios fritadores de bolinho. Por isso, continuar prefeito de Anápolis até 2016 é muito mais vantajoso para Gomide do que aventurar-se em 2014.

Por outro lado, uma candidatura de Paulo Garcia ao governo do Estado, em 2014, acabaria favorecendo o marconismo. Esta candidatura racharia ao meio o eleitorado da aliança PT-PMDB em Goiânia. Reside na força eleitoral desses dois partidos, em Goiânia, a esperança do Irismo de voltar ao poder estadual. Na última eleição, o poderio da aliança auri-alvirubra em Goiânia não foi o bastante para barrar mais uma vitória de Marconi. A cisão desta aliança levaria o Irismo a mais uma derrota, ainda mais acachapante.

Diriam vocês: por que, então, os peemedebistas estariam insuflando a candidatura de Paulo Garcia, que, no frigir dos ovos, é prejudicial aos interesses estratégicos do PMDB? Simples: Os peemedebistas não sabem pensar estrategicamente. Homens de visão curta, só vêem o curto prazo. Gananciosos pelo poder, visam vantagens imediatas, como, por exemplo, ocupar a prefeitura de Goiânia na eventualidade de Paulo se candidatar a governador. Acreditam que, manipulando estruturas de poder, forçariam todo o eleitorado da capital a votar no PMDB. E assim vão preparando as condições para que, em Goiás, o raio caia pela quinta vez no mesmo lugar.

*Helvécio Cardoso é jornalista.

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