Tribuna: Paulo ataca Marconi, mas mostra falta de firmeza na condução da Prefeitura

Veja matéria publicada na edição desta semana da Tribuna do Planalto:

 

Paulo em guerra com Marconi

Ainda sonhando em ser o candidato da oposição, petista carrega nos ataques ao governo do Estado. Na prefeitura, porém, falta firmeza para sustentar ações

Daniel Gondim – Repórter de Política

Depois da “quedas de braço” por causa dos serviços de água e esgoto e do passe livre estudantil, o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), voltou a comprar briga com a gestão do governador Marconi Perillo (PSDB) na semana passada. A discussão, desta vez, foi em relação às lacunas na área da saúde. A disposição enérgica que Paulo tem para buscar polêmicas com o governador, porém, é bem diferente da demonstrada na condução da prefeitura, onde Paulo titubeia na hora de bancar projetos polêmicos. Assim, os ataques ao governo, vistos por muitos como um sinal claro que o prefeito ainda busca ser candidato ao governo em 2014, acabam perdendo força.

Os recentes ataques de Paulo começaram na quinta, 8. Durante prestação de contas na Câmara dos Vereadores, o prefeito de Goiânia criticou gestão do tucano na área da saúde. No sábado, 10, durante lançamento do programa da prefeitura Mais Trabalho, Mais Saúde, o petista voltou a abordar o assunto, responsabilizando a falta de investimento no Estado pelas dificuldades da prefeitura no setor.

“Nossas unidades estão cheias porque de cada três atendimentos, dois são de fora. Não vamos deixar de atender ninguém, mas é preciso separar o joio do trigo. Por que nossas unidades estão superlotadas. Porque atendemos o Estado todo. De cada três atendimentos, dois são de fora”, afirmou Paulo, que chegou a sugerir aos presentes para que fotografassem ambulâncias de municípios do interior.

A estratégia poderia até render dividendos políticos para Paulo Garcia. O problema, porém, é que, no comando da prefeitura, o petista não consegue demonstrar a mesma vontade com que ataca o governo do Estado. Nos projetos polêmicos, por exemplo, o prefeito, ao menor sinal de reação negativa, recua, deixando espaço para questionamentos.

As contradições da estratégia do petista já causam questionamentos entre os aliados. “O governador não comprou a briga na Saúde. O Paulo ficou foi discutindo com o Antônio Faleiros (secretário estadual da Saúde), que foi quem saiu maior dessa história”, afirma um aliado do prefeito.

Ataques
Os ataques de Paulo Garcia ao governo são interpretados de duas maneiras. Uma delas é baseada na vontade do prefeito de ser o candidato da oposição ao governo em 2014, o que o motiva a criar embates com o governador Marconi Perillo como forma de ganhar envergadura política aos olhos do eleitorado. “O Paulo e quem elaborou essa estratégia apostando na informação de que o governador é ‘esquentado’, que não consegue ficar sem responder quando é provocado”, explica um petista.

Elaborada por conselheiros do staff de Paulo, a estratégia é seguida à risca pelo prefeito da capital. Desde que venceu as eleições municipais em 2012, o petista tem adotado postura combativa em relação ao Estado. No fim do ano passado, por exemplo, as críticas ao governo de Marconi atingiram os serviços de água e esgoto prestados pela Sa­neago em Goiânia.

Descontente com a qualidade, o prefeito da capital insinuou a possibilidade de romper a concessão e municipalizar o fornecimento. A intenção ficou mesmo só na ameaça, pois, mesmo criando uma comissão para estudar a possibilidade, Paulo recuou sobre o assunto, se dizendo disposto a dialogar com a estatal para melhorar o serviço.

Até agora, porém, a tática de atacar a administração marconista não surtiu muito efeito positivo para Paulo, já que o governador nunca deu muita atenção aos ataques do petista. No recente bate-boca sobre a Saúde, por exemplo, o porta-voz do governo foi o secretário de Saúde Antônio Faleiros (PSDB).
Nesse sentido, a estratégia também acaba sendo falha, já que, ao discutir com Faleiros pela imprensa, Paulo compra briga com um auxiliar do governador. Para as pretensões eleitorais do petista, a discussão só teria sentido se fosse com o próprio Marconi Perillo, em um embate político que pudesse significar uma prévia das eleições de 2014.

Além disso, nos bastidores, outra crítica é feita à tática de Paulo de criar embate com o governo. No caso mais recente, por exemplo, o programa Mais Trabalho, Mais Saúde ficou em segundo plano, o que incomodou aliados, que viam no projeto uma boa possibilidade de o petista conseguir dividendos políticos por ter adotado medidas para melhorar o setor.

“É um projeto bom, que tem pontos importantes. Era para o Paulo ter visibilidade, resgatar um pouco o prestígio com a população, mas o bate-boca apagou isso tudo. Ninguém deu importância para o programa, só quis saber da briga”, lamenta um aliado.

Outro furo na estratégia por 2014 é que, no comando da prefeitura, Paulo tem dificuldades de tomar decisões polêmicas. Na avaliação do aliado, a postura do prefeito de mudar de opinião acaba por ser prejudicial, pois gera desgastes tanto políticos quanto administrativos. A Tribuna listou seis episódios nos quais Paulo anunciou uma decisão, mas depois recuou.

A mais recente foi o projeto, enviado no dia 8 de agosto, que alterava a forma de cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Se aprovada, a taxa seria cobrada de forma progressiva, de acordo com o valor e o uso dos imóveis. Para discutir o texto, já havia até audiência pública marcada na casa.
Paulo, porém, não suportou a pressão da imprensa. Na quinta, 16, depois de uma semana de críticas às mudanças propostas, a prefeitura retirou o projeto da Câmara alegando necessidade de “alterações técnicas”. Para os aliados, esse tipo de atitude gera muito desgaste para o prefeito.
“Paulo precisa ser mais firme em determinadas situações. É muito ruim ele propor um determinado projeto ou sinalizar em uma direção e, logo na primeira crítica recebida, recuar. Na questão do IPTU, por exemplo, fica uma sensação de que tinha algo errado para ele ter mudado de ideia. Assim, não adianta nada querer brigar com o governador se não consegue ter pulso para sustentar as decisões administrativas”, reclama outro aliado do prefeito.