Fabiana Pulcineli detona Paulo Garcia no artigo semanal no POP. Prefeito foi reduzido a pó. Leia

Veja o artigo de Fabiana Pulcineli na edição desta segunda-feira em O Popular:

 

Cena Política

21/10/2013

Nota baixa em gestão de crise

“Se agisse com equilíbrio, mais jogo de cintura e moderação, o Paço Municipal poderia ter evitado desgastes.”

Se houve influência política, intransigência e excessos por parte de professores grevistas que ocupam a Câmara de Goiânia desde o dia 8, os atos são condenáveis, mas os maiores equívocos vieram da Prefeitura de Goiânia, que, mais uma vez, demonstrou inabilidade política para lidar com situações de crise e acumulou desgastes.

A Prefeitura subestimou o movimento antes da ocupação do plenário da Câmara, quando, no dia 25, parte dos professores entrou em greve e foi ao Legislativo brigar por uma emenda ao projeto de lei do Executivo que mudava a gratificação de difícil acesso.

A manobra da base na Câmara, incentivada pelo Paço, de segurar a votação à espera de vereadores governistas que garantiriam o placar a favor do Executivo irritou os manifestantes, que defendiam diálogo e negociação. Um equívoco a manobra (suspender votação para esperar vereadores chegarem) para agir de acordo com a conveniência. Erro da Câmara, que poderia ser evitado se a condução do processo tivesse sido diferente.

No dia seguinte à ocupação, o secretário de Governo, Osmar Magalhães (PT), designado porta-voz do Paço para o caso, saiu com uma pérola: “O prefeito não interfere na sessão da Câmara. Trata-se de outro Poder e ele não vai intervir nessa questão. A relação entre poderes será preservada”.

Disse ainda, em entrevista à CBN Goiânia, que o problema não era a falta de diálogo por parte da Prefeitura e, sim, “má-fé” daqueles que lideravam a manifestação. Afirmou ainda que o auxílio que seria pago aos professores era “justo e suficiente”.

Após a ocupação, a Prefeitura foi lenta em propor negociação e passou a justificar (inclusive com propagandas) o projeto, alegando que o Ministério Público havia exigido mudanças. No entanto, as reivindicações são muito mais amplas que a questão do auxílio.

O Paço também errou em fingir não enxergar (e novamente subestimar) a rejeição dos professores que aderiram à greve ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sintego) – que ficou ainda mais em baixa com a categoria –, dada a ligação que a entidade tem com petistas e com a secretária municipal de Educação, Neyde Aparecida.

A primeira reunião para tentar negociar só foi feita com intervenção do MP. O prefeito Paulo Garcia (PT) resistiu a receber o comando da greve e tratou o assunto, inicialmente, com desdém. Em evento da Prefeitura cercado por guardas municipais para evitar manifestações, no dia 14, Paulo Garcia, questionado sobre a crise, disse ao POPULAR que era “dia de festa, dia de comemoração” e que não falaria sobre a paralisação. O evento, véspera do Dia do Professor, era em comemoração aos 80 anos de Goiânia, com entrega de troféus a personalidades da capital.

No dia seguinte, uma semana após a ocupação na Câmara, o prefeito recebeu grevistas, ao lado de vereadores e representantes do MP. Foram negociados, ponto a ponto, os 24 itens da pauta de reivindicações dos professores. Mas o documento enviado só no dia seguinte ao comando de greve não era oficial, não tinha assinatura do prefeito e continha termos dúbios sobre pontos acordados. Ou foi amadorismo puro e simples ou uma tentativa nada inteligente de se livrar dos compromissos.

Depois, em entrevista coletiva, o prefeito disse que não mudaria a redação. No dia seguinte, mudou. E mandou-o devidamente oficializado na sexta-feira aos grevistas, que devem, portanto, interromper hoje o movimento.

Ou seja, a Prefeitura se viu obrigada a engolir a “má-fé dos professores”, a rever a necessidade de diálogo, a “descobrir” que não se tratava de um problema da Câmara e, principalmente, a reconsiderar o que achava ser justo no pagamento.

Esta coluna em 6 de junho já falava a respeito dessa postura recorrente do Paço: “Em todos os principais problemas relacionados à Prefeitura este ano – coleta de lixo, falta de médicos e demora no atendimento em unidades de saúde, mudanças no Plano Diretor e transporte coletivo –, o que se viu foi o esforço em minimizar a gravidade dos fatos, dificuldades em explicar os problemas e um tom de arrogância ou omissão que não combinam em nada com uma gestão moderna”.

Mais uma vez, se agisse com equilíbrio, mais jogo de cintura e moderação, o Paço Municipal poderia ter evitado desgastes. E não contribuiria para prejuízos de uma greve que durou 27 dias.