Prefeito Roberto faz discurso contundente: “Os próximos 60 a 90 dias serão vividos minuto a minuto”

Ao inaugurar nesta sexta-feira (27) o Centro de Internação Norma Pizzari Gonçalves, com 45 leitos para pacientes de coronavírus, o prefeito de Anápolis, Roberto Naves (PP), fez um discurso em tom sereno, mas bastante contundente em relação às decisões tomadas nesse período de pandemia. Ele deixou claro que age para que a cidade tenha condições de tratar seus doentes em um cenário mais crítico, embora todos trabalhem para que não se chegue a essa situação. Veja os principais trechos da fala do prefeito.

“Não tem como julgar o que está sendo feito sem antes saber o que está por vir”
“São R$ 4 milhões investidos no mês para coronavírus. À medida que os números forem crescendo, Deus queira que não, as ações não serão consideradas como sendo ações precipitadas. Elas passarão a ser consideradas ações com precisão cirúrgica. Não tem como julgar o que está sendo feito sem antes saber o que está por vir. Na cidade de São Paulo já está acontecendo o que ocorreu na Itália, lá já não tem mais nenhum leito de UTI. E quando esgota, acontece o que nenhum profissional médico quer: decidir quem vai para UTI, decidir quem vai viver”.

“Estamos adquirindo 10 mil testes para conhecer a realidade”
“Os números divulgados são os números reais dentro daquilo que está sendo testado. Uma população de 400 mil habitantes, você testar 20 pacientes por semana você não chega ao número real de casos. Para cada oito testes que estamos enviando para Goiânia, você tem um caso confirmado. De quarta para quinta, no país houve um salto de 52 óbitos para 74, crescimento de 50%. Que Deus possa nos abençoar e tudo aquilo que está acontecendo em outros países não aconteça no nosso. Mas se acontecer, pode ter certeza, foi feito o melhor, feito tudo dentro do possível pensando na vida das pessoas. (…) Estamos adquirindo 10 mil testes para conhecer a realidade”.

“Para recuperar a economia, isso é plano de governo, e o país já precisava disso”
“Para recuperar a economia, isso é plano de governo, e o país já precisava disso. O [presidente dos EUA] Donald Trump injetou 3 trilhões de dólares para economia. Isso é governo federal. Eu gostaria de deixar claro que confio naqueles que estão lá [em Brasília], eles não deixarão a população brasileira de baixa renda desamparada. Confio no governo do estado, numa pessoa [Ronaldo Caiado] que ficou seis anos na faculdade, prestou seu juramento, atua como médico até hoje, conhece o sistema de saúde, daí estar mais sensibilizado que outros governantes. Caiado está focado na vida. O presidente Bolsonaro também está focado, o prefeito de Anápolis também. Mas as responsabilidades são diferentes. O presidente tem que se preocupar com a vida das pessoas e com a economia do país. O governador a mesma coisa no estado, o prefeito com o município. À medida que nossa responsabilidade de salvar vidas aumenta, conter a economia é o menor”.

“O pós-coronavírus não vai ser menos dolorido do que o pico do coronavírus”
“O coronavírus veio e vai mudar a humanidade. Vai mudar a nossa questão da higiene, nosso relacionamento pessoal. O pós-coronavírus não vai ser menos dolorido do que o pico do coronavírus. Nós já sabemos. Teremos quadros de depressão, naturalmente precisamos trabalhar para que não aconteça, mas teremos mais suicídios. Pequenos empresários passando por dificuldades”.

“A partir do 14º dia vamos abrir algumas coisas, mas com responsabilidade”
“Faço uma análise tranquila. Tem o Roberto da área da saúde, farmacêutico; tem o Roberto empresário, que queria ver sua escola funcionando; e tem o Roberto prefeito. Como prefeito tenho obrigação de pensar por aqueles que não têm voz, não tem indústria, não tem dinheiro na Bolsa de Valores. Existe pressão forte dos especuladores. A Bolsa caiu mais de 30%. O mercado pressiona para voltar a produzir. Existe pressão forte por parte dos grandes empresários. Agora querem colocar sua empresa para trabalhar, mas quando fala em montar um plano, dentro de normas, eles dizem que não podem, pois estão de quarentena. Você pode ficar de quarentena, seu funcionário não? Quem não tem dinheiro você quer obrigar a trabalhar. A partir do 14º dia vamos abrir algumas coisas, mas com responsabilidade. À medida em que forem surgindo casos, podemos ir recuando ou avançando nessa questão da quarentena, mas sempre decidindo o que é melhor do ponto de vista da saúde”.

“Profissionais da saúde concursados disseram que não trabalham com o coronavírus”
“Falo para os profissionais da saúde: a população precisa de vocês lá na ponta. Saem dos consultórios. Tivemos que fazer chamamento, porque profissionais concursados disseram que não trabalham com o coronavírus. Dar entrevista é fácil. O que está sendo escrita é uma página muito importante da sociedade”.

“Tudo muda dia após dia”
“Os próximos 60 a 90 dias serão vividos minuto a minuto. As decisões serão tomadas pelos resultados que foram obtidos por decisões anteriores. Quando olham três casos pensam que as decisões foram precipitadas. Será que essa é a mesma percepção de São Paulo, que não tem leito de UTI? Tudo muda dia após dia. Quando lotar as unidades, a percepção muda”.

“Vocês da imprensa mexem com a percepção das pessoas”
“Vocês da imprensa têm a capacidade de acalmar ou gerar desespero, mexem com a percepção das pessoas. Precisam comunicar com tranquilidade e precisão”.

“Não vou me acovardar”

“Estamos prevendo que servidores vão receber dentro do mês, porque lá atrás fizemos o dever de casa. Eu podia aparecer mais, [mas] no aparecer mais, trabalhar de menos. E se trabalhasse menos, não estaríamos nas condições de hoje, muito mais privilegiada que muitos municípios. Qual cidade inaugurou um centro para casos de coronavírus? Por enquanto só o governo do Estado que inaugurou o Hospital do Ipasgo. Tenho quatro filhas, uma delas com problema sério de bronquite asmática. Tenho uma mãe com mais de 65 anos. Mesmo sabendo e conhecendo os riscos, não vou me acovardar”.