Jornalista Milton Neves compartilha post de Cristiano SIlva sobre agressão que sofreu de seguranças de Caiado

O jornalista Milton Neves, apresentador do programa Terceiro Tempo, na Rede Bandeirantes, compartilhou no Facebook postagem do editor do Goiás24Horas, jornalista Cristiano Silva, sobre a covarde agressão que sofreu de seguranças do governador Ronaldo Caiado. 

Na postagem, Cristiano anexou o vídeo da selvageria cometida contra ele pelos seguranças palacianos e relatou o episódio em detalhes, deixando claro que não vai desistir enquanto os culpados não forem punidos.
Apesar do silêncio vergonhoso da imprensa em Goiás acerca da violência, a Associação Goiana de Imprensa (AGI)  denunciou a agressão brutal e pediu às autoridades policiais, ao Ministério Público e ao governo do estado a apuração rigorosa dos fatos e a punição exemplar dos responsáveis.
 
Veja o desabafo do jornalista, que foi compartilhado por Milton Neves no Facebook:

“É injusto. É covardia. É tirania o que Ronaldo Caiado fez comigo na última sexta-feira (27)”

Além do jornalismo trabalho também com reciclagem. Na última sexta-feira (27), levantei-me no primeiro horário e fui a Bela Vista/GO para socorrer 5 catadores de reciclados que me telefonaram pedindo dinheiro para comprar comida, pois com essa pandemia do coronavírus não tinham a quem recorrer.

Saquei R$ 1 mil e levei R$ 200 para cada um.  “Depois o senhor vai descontando no material que a gente vender pro senhor”, disse um deles, mas sei que o socorro vai se repetir e vamos levando até onde der, respondi e voltei para Goiânia.

No caminho recebi uma mensagem de WhatsApp de um deputado estadual dizendo que o governador havia determinado o fechamento da Praça Cívica para furar um buzinaço de manifestantes que apoiam a reabertura do comércio, o que ganhou força após o discurso do presidente Bolsonaro.

É lógico que todo mundo está preocupado com a economia. Também tenho empresa, com nove funcionários diretos e mais cinco indiretos.Todas eles têm família e dependem da minha empresa para sobreviverem. E imagino que com esse sentimento, com essa responsabilidade nas costas, somando as palavras de Bolsonaro, centenas foram as ruas naquela tarde de sexta para dar um sinal ao governador Ronaldo Caiado, como se fosse para dizer “ajude-nos de alguma maneira, porque fechar os nossos estabelecimentos sem nos ajudar de alguma maneira é um absurdo”.

Caiado sendo Caiado é isso: faz discurso para a mídia nacional e aqui em Goiás é um fracasso. Conversando com um prefeito de grande cidade de Goiás, de 100 mil habitantes, ele me confidenciou que o governo manda 5 testes para o coronavírus por semana e, mesmo assim, ele tem que dividir com mais 4 cidades vizinhas (não vou falar o nome porque  prometi não comprometer esse prefeito, que tem medo de ser perseguido pelo resto do governo de Caiado). Enfim, o fato é que decidi ir a Praça Cívica fazer a cobertura jornalistica da manifestação.

Meu funcionário me pediu o carro emprestado para buscar uma geladeira que ganhou de uma pessoa em Caldazinha, então pedi que me deixasse na praça e de lá seguiria andando para casa, no setor Oeste.

Quando cheguei vi uma cena que tinha lido nas páginas negras da ditadura militar: cavalaria da PM, várias viaturas fechando avenidas e um forte aparato militar. Nos meus 22 anos de repórter esportivo vi muita polícia junta assim nos estádios de futebol; em uma praça para barrar manifestantes nunca tinha visto.

Registrei o fato em tempo real no Facebook do blog Goias24horas. Um pouco adiante vi uns 10 pedreiros trabalhando na reforma do coreto da praça. “Ué, como assim? A quarentena do Caiado não vale para obras públicas?” Fiz outro vídeo e comentei que ali o governador cometia um erro: bloqueava o buzinaço e no mesmo local uma obra pública acontecia e com um detalhe que não falei no vídeo, ninguém usava máscara, luvas e não tinha álcool em gel, ferramentas pulando de mão em mão e etc… Quando comecei a gravar o vídeo os trabalhadores foram pulando dos andaimes e saindo da obra, mesmo assim deu tempo de mostrar, era 15h30 por aí.

Como eu estava na praça fui andando. Um jovem senhor baixo, barba, roupa bem arrumada, começou a me seguir. Caminhei e parei. Ele fez o mesmo. Voltei alguns metros e ele junto. Logo pensei: “Estão me seguindo, aqui deve ter câmeras ligadas diretamente no palácio do governo”. Quando cheguei perto da casa do escritor Bariani Ortêncio, em frente à praça, vi que a manifestação com buzinaço se concentrara ali. Gravei o último vídeo antes de ser atacado, torturado, socado e ter um de meus telefones roubados.

Gravei o vídeo e comecei a caminhar na direção a avenida 85. Perto do Hotel Cristal, parei para ver meu WathtsApp. Alguém tinha acabado de mandar uma mensagem. Nesse momento ouvi: “Goias24horas filho da puta” e senti uma forte pancada no rosto, do lado esquerdo, gosto de sangue na boca: eram dois homens que revezavam no espancamento, senti socos no abdômen, falta de ar e enquanto procurava o ar senti o covarde me segurar pelo colarinho e desferir um golpe no rosto, mais gosto de sangue e pedacinhos de areia…

Não era areia, era dente se esfarelando. Tentavam tomar meu telefone, como eu tinha dois aparelhos, o que foi roubado por eles é o de denúncias do blog, pensaram que tinham tomado o meu telefone e diminuíram a agressão. Nisso escapuli. Mas quando saí correndo, apareceu um terceiro homem que veio ao meu encontro e me deu outro soco no rosto, corri para uma pracinha onde uma mulher passeava com um cachorro, gritei por socorro, os vizinhos apareceram e os agressores deixaram o local – “atravessaram a avenida 85, caminharam para uma viela, entraram em uma blazer preta e foram para o palácio” palavras de um vizinho que acompanhou tudo da janela de seu apartamento.

Gravei dois vídeos, todo machucado. Meu sangue derramado pela família Caiado, assim como fizeram com a família de  Abilio Wolney Aires Neto, em um cenário mais trágico que entrou para a história nos livros do doutor Abílio, em São José do Duro/GO. A chacina sangrenta e violenta patrocinada pela família Caiado na época entrou para o clássico literário de Bernardo Élis em O Tronco. Enfim, Caiado sendo Caiado. Coronel, covarde, canalha.

Consegui imagens de câmeras de seguranças, os agressores foram identificados. O governador Calado, proibindo o assunto, o único ruído é o da chibata.

No outro dia voltei ao local e a polícia da Giro tinha visitado os comerciantes locais e pasmem: apagaram imagens das câmeras de seguranças que registraram os rostos dos agressores com perfeição, outro crime. Não tinham mandado judicial para fazê-lo, mas fizeram.
Graças a Deus consegui imagens de vídeo desses policiais apagando as gravações e isto também foi encaminhado para o Ministério Público, Polícia Federal, STF e corregedoria policial.
 
Um parágrafo dedicado a PM: a polícia goiana é séria e responsável. Respeito a PM. Tenho amigos na PM, de soldados a coronéis. O Goias24horas sempre defendeu os direitos dos servidores da PM e sempre viu neles a segurança de nosso estado. Mas, infelizmente, alguns maus policiais mancharam o nome da corporação e da Casa Militar do governador Ronaldo Caiado. Foram capazes de cometer tantos crimes seguidos, mas não ficarão impunes.

Tenho que seguir em frente pois se ‘o crime não for denunciado teremos outro holocausto’.

Cristiano Silva, jornalista e escritor