ESPECIAL Goiânia: estátua do bandeirante Bartolomeu Bueno, um notório exterminador de índios, vai sobreviver à onda antirracista que varre o mundo?

Começou em Bristol, no Reino Unido, com a derrubada da estátua de traficante de escravos Edward Colston. Desde o final de semana, movimentos semelhantes têm se repetido mundo afora, com o questionamento à presença de monumentos de exaltação a personalidades históricas de passado indigno.

Em Goiás, no pleno centro da capital Goiânia, a estátua do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva Filho, um notório exterminador de índios, vai sobreviver à onda de iconoclastia que varre o mundo depois da morte de George Floyd nos Estados Unidos?

Na terça-feira (9), uma multidão se reuniu na Universidade de Oxford, no Reino Unido, pedindo a retirada da estátua de Cecil Rhodes, fundador da antiga colônia britânica da Rodésia, atual Zimbábue. Mais cedo, na Bélgica, a prefeitura da Antuérpia retirou a figura do rei Leopoldo II, acusado de genocídio durante a colonização belga no Congo. Em São Paulo, grupos organizados pedem a destruição da imagem de Borba Gato, bandeirante acusado de escravizar negros e índios.

O debate não é recente e todos os personagens acima já foram alvo de questionamentos nos últimos anos. Para uma parcela da sociedade, cada vez mais ativa nas ruas ou nas redes sociais, não cabe eternizar em bronze ou concreto, sobretudo em praça pública, a imagem de assassinos ou figurões cuja fortuna foi construída à custa da exploração alheia.

Em Goiânia, ninguém ainda apareceu para reivindicar a derrubada da estátua do Bandeirante, instalada no cruzamento da Av. Goiás com a Av. Anhanguera, no centro da cidade.A estátua reproduz a figura de Bartolomeu Bueno da Silva (filho) com direito a espada e bacamarte, que veio pela primeira vez com seu pai a Goiás em 1682. No ano de 1722, saiu de São Paulo, junto com a sua expedição de aproximadamente 150 homens e encontrou ouro no Arraial de Santana, futuramente conhecida como Vila Boa de Goiás, atualmente Cidade de Goiás.

A escultura de Bartolomeu Bueno foi um presente doado pelos estudantes Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, tendo à frente, na época, Ulysses Guimarães. Os bandeirantes era homens cruéis e cometeram várias atrocidades. Ele teriam massacrado mais de 500 mil índios. Bartolomeu Bueno da Silva Filho, o “herói’ glorificado em Goiás, era um deles.

Doutor em História da Arte, escultor e pesquisador, José Francisco Alves lembra que a derrubada de estátuas é um fenômeno comum, por vezes mais lembrado do que o destino dos próprios personagens. A queda da estátua de Saddam Hussein, no Iraque, exemplifica, marca mais a memória coletiva do que o enforcamento do ditador. Autor de A Escultura Pública de Porto Alegre, obra de referência sobre monumentos da Capital, ele defende uma discussão legislativa sobre a retirada de estátuas ou a mudança de nome de logradouros.

“Na Espanha foi assim com os monumentos de exaltação ao General Franco, banidos pela Lei da Memória Histórica. Até seus restos mortais a família teve de retirar do Vale dos Caídos. Em Porto Alegre, a Avenida Salgado Filho por muitos anos se chamou 10 de Novembro e o nome foi trocado porque comemorava os 10 anos de governo de Getúlio Vargas, quando ele já era um ditador”, comenta.

Alves sustenta que a destruição de monumentos deve ser entendida em seu contexto, como a derrubada da Coluna de Vendôme pela Comuna de Paris em 1870, e entende que o levante atual tem justificava na insurgência global contra o racismo. Contudo, considera importante discutir se há limite para atos de revisionismo histórico que buscam apagar da paisagem urbana determinadas personalidades.

— Até quanto isso vale? Heróis farroupilhas tinham escravos. Vamos retroceder até o Império Romano e destruir a estátua de Marco Aurélio, em Roma? A democracia grega nasceu na escravatura. Cada caso é um caso e cada movimento tem seu contexto histórico — contemporiza.

Para o historiador Gunter Axt, ainda que os atos de remoção de estátuas sejam pacíficos e dotados de plena justificativa humanitária, o ideal é que as ações tenham respaldo legal, com aprovação parlamentar.

“Tem que ser pela lei, com diálogo. Sei que hoje tudo e todos são objeto de questionamento. Na Inglaterra, agora estão contra (ex-primeiro-ministro Winston) Churchill. Mas é melhor ter conversa e consenso para se agir com cautela do que multidões enfurecidas botando tudo abaixo”, avalia.