• Delegado de quem?
No palanque de Pires do Rio, após ouvir do prefeito Hugo do Laticínio (Podemos) a denúncia de superfaturamento em uma obra estadual, o governador Ronaldo Caiado (UB) reagiu com algo mais grave do que arrogância: exibiu a intenção de controlar o destino da denúncia.
Em vez de solicitar que a denúncia fosse enviada ao Ministério Público, sugeriu que um “delegado seu” tomasse o depoimento do prefeito. A pergunta que surge é simples e incômoda: desde quando cabe ao governador escolher o delegado que apura um fato que pode comprometer seu próprio governo?
• Dado alarmante
A denúncia exposta por Hugo é direta: a Goinfra teria gasto R$ 70 milhões em apenas 12,4 km de asfalto, o que significa R$ 6 milhões por quilômetro — três vezes mais do que o valor praticado na região, que gira em torno de R$ 2 milhões por km.
A obra, segundo o prefeito, está superfaturada. O presidente da Goinfra, Pedro Salles, estava presente e não respondeu. Em vez de indignação diante do possível dano ao erário, Caiado demonstrou desconforto com o microfone na mão alheia.
E, mais do que isso, tentou trazer a denúncia para o seu terreno, onde ele tem comando. Mas se há dolo específico, o caminho correto é o Ministério Público e o Judiciário — não um “delegado do governador”.
• Instituições feridas
Entregar uma denúncia dessas ao delegado “do Caiado” é como confiar os ovos à raposa. O próprio Ministério Público, por meio da promotora Leila Maria de Oliveira, já alertou recentemente para a falta de transparência nas obras sem licitação do governo estadual, que somam R$ 2,4 bilhões.
Reportagens do Popular e do Goiás24Horas já apontaram orçamentos inflados em até 70%. Quando o governador tenta centralizar a apuração, atropela instituições e expõe o risco de impunidade.
A lei não admite donos da verdade — muito menos donos da investigação. A sociedade precisa estar atenta: a denúncia não pode ser engavetada dentro do próprio governo.
Cristiano Silva
Editor

















