Conheci José Escobar há três anos. A voz era firme, mas marcada por uma rachadura que revelava a ferida aberta desde o assassinato do filho, Fábio Escobar, morto em 2021 após denunciar caixa 2 e corrupção na campanha eleitoral de Ronaldo Caiado em 2018, que ajudou a coordenar.
Em Goiás, poucos tinham coragem de ouvir. A imprensa de Goiânia, em sua maioria, fazia o jogo do poder, preservando o governador e abafando o escândalo. Apenas alguns veículos de Anápolis insistiam em romper esse silêncio.
Foi nesse cenário que nossos caminhos se cruzaram. No Goiás24Horas, abrimos o espaço que lhe era negado. A partir dali, o caso alcançou a revista Veja, a Agência Pública, e outros veículos foram obrigados a encarar a história.
O sobrenome Caiado está no banco dos réus ao lado de policiais e do ex-presidente do DEM em Anápolis, Cacai Toledo. Oito pessoas foram assassinadas em queima de arquivo, entre elas uma grávida. Esse caso merecia um livro e escrevi, a pedido do meu amigo José Escobar.
Falamos pela última vez um dia antes do infarto. Ele queria saber quando ficaria pronto.
— Cristiano, estou muito ansioso… esse livro será meu ato final.
José partiu antes de vê-lo. Mas seus passos, sua voz e sua persistência permanecerão eternas nessas páginas, amigo.
Em sua memória termino este artigo com versos de Carlos Drummond de Andrade:
“E agora, José?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou.
E agora, José?
E agora, você?
Você que é sem nome, que zomba dos outros,
Você que faz versos, que ama, protesta (…)
E tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou.
E agora, José? (…)
Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense,
Se você dormisse, se você cansasse, se você morresse…
Mas você não morre, você é duro, José (…)
Você marcha, José…
José, para onde?
Cristiano Silva
Editor

















