Euler Belém pergunta na coluna Imprensa: “Cadê o engenheiro que projetou o túnel alagável da Araguaia?”

O editor-chefe do Jornal Opção, Euler Belém, escreve nota neste domingo perguntando sobre quem projetou o túnel da avenida Araguaia, que é tomado pelas águas a cada chuva que cai sobre Goiânia.

“Quem é o responsável?”, quer saber o jornalista.

Euler revela que, “de minha parte, diverti-me à beça com as piadas e com as fotomontagens” que tomaram conta das redes sociais, tendo como tema as desventuras do prefeito Paulo Garcia (PT) com a obra.

Veja o texto de Euler Belém:

A imprensa tem mesmo espírito justiceiro e alguma coisa de Robin Hood. Jornalistas apreciam, quando podem, “bater” nos “grandes”. No episódio do alagamento do túnel da Avenida Araguaia, nas proximidades do parque Mutirama, os jornais publicaram reportagens responsabilizando a Prefeitura de Goiânia. Não estão errados. A prefeitura é mesmo a responsável pela obra e, portanto, por seus defeitos. Mas a imprensa esqueceu daquilo que os filósofos, como Hannah Arendt, Elias Canetti e Isaiah Berlin, chamam de “responsabilidade individual”.

O secretário de Obras e Serviços Públicos da Prefeitura de Goiânia, Luciano de Castro, atribuiu o problema a entupimentos de bueiros na região — e tem certa razão. Mas é provável que há algum problema na construção do túnel. É possível que haja, por exemplo, um erro de engenharia? Um erro, se há, da ciência? Quando se apresenta um projeto técnico para o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), ou para o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), é óbvio que ambos examinam-no atentamente, sobretudo as maquetes e desenhos, mas não têm conhecimentos técnicos suficientes para entender a integralidade de como a obra será construída. Aspectos técnicos são para técnicos. No papel, o túnel é uma maravilha.

Se os gestores, mesmo tendo responsabilidade, não têm como saber, totalmente, como a obra será feita, por falta de domínio das informações técnicas, é necessário que a imprensa e a sociedade convoquem o engenheiro que planejou a obra, que talvez não tenha percebido os impactos possíveis — como o volume de água decorrente de chuvas intensas —, para apresentar uma explicação plausível sobre o que ocorreu. Houve um erro científico? O engenheiro que planejou e a empresa que executou a obra não fizeram um estudo detalhado da região e das modificações que fizeram para “agasalhar” o túnel? O que de fato ocorreu? O engenheiro é experiente e é formado por uma universidade qualificada? Não se trata de “bater” ou “atacar” o engenheiro — o “pequeno”, diria nossa imaginação marxista-robinhoodiana — ou então a empresa que construiu a obra, mas de cobrar esclarecimentos precisos. O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) e o Sindicato dos Engenheiros não deveriam se posicionar?

Louve-se o bom humor do goianiense, potencializado, em larga medida, por oposicionistas dominantes nas redes sociais. O que parece espontâneo, e provoca nosso riso, é, em parte, uma construção política, com textos e imagens elaborados não pelo povão das redes sociais, e sim por jornalistas e, um ou dois, publicitários. Não há nada de ruim nisto: rir faz bem para todos, até para as autoridades públicas, que, se rissem mais, inclusive de si mesmas, seriam menos autoritárias. De minha parte, diverti-me à beça com as piadas e com as fotomontagens. Numa delas, um jovem aparece com um peixe nas mãos, como se o tivesse pescado no “lago” formado dentro do túnel. Noutra montagem, pedalinhos foram colocados nas águas do “lago”. Mas a cena mais cômica, e não foi produto da imaginação de um cartunista, é aquela em que passageiros de um ônibus são retirados da área alagada pelo motorista de um trator.