Artigo de Batista Custódio: “Onde o futuro mora”. Leia a íntegra aqui

Onde o futuro mora

O CORAÇÃO pede-me para falar coisas da política contemporânea com as palavras que os eleitores têm vontade de dizê-las aos candidatos derrotados no primeiro turno e que até os pastores devotos aos votos e os analfabetados do repetitismo estiveram calados nelas. Faltaram-lhes o recato nas críticas e o sincero das autocríticas. Sobraram-lhes bate bocas nos monólogos e suposições de palpites no conceito de opinião. Houve ladrados paralelos à inteligência e imitantes a vira-latas atrelados um ao outro nas caudas e rosnantes frente a frente nas fuças. Iguais ao luxinho dos pets das madames que elas é que têm de defendê-los dos perigos, zanzaram nas candidaturas enfeites de líderes que os pobres mantêm-nos com os votos na boa-vida de enriquecidos nos mandatos.

As redes sociais universalizaram ignorâncias pessoais na internet e viraram ponto de encontro de foragidos dos livros. Os políticos mal-informados de conhecimento entraram nessa onda de massificar maus exemplos no inconsciente coletivo. Os promesseiros de obras estapafúrdias e os boquirrotos do denuncismo leviano desastraram-se nas urnas do primeiro turno. Afugentados de pensadores e abrigados em marqueteiros, caíram na malha da engenhosidade da propaganda eleitoral enganosa, como se o eleitor fosse consumidor de votos, as pessoas fossem mercadoria disponível e a vida pública fosse mercado político.

O pensador cultiva o conhecimento e prioriza o estadista, no político. O marqueteiro profissionaliza a inteligência e cultua o cliente no político. O candidato que lesse pelo menos só duas linhas, da página 1290 do novo dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, passaria a saber que marqueteiro é “Aquele que, oportunisticamente, se utiliza do marketing para projetos e interesses pessoais”. No duo confrontante no segundo turno, em uma das alas, o candidato e o vice a prefeito de Goiânia teimam em confiar em sua merecida fama de empresários bem sucedidos e não se desconfiam que já estão fragorosamente mal sucedidos no próximo domingo.

Estamos na confluência das profecias do apóstolo João Evangelista e do santo João Bosco. A vida é o Bem a ser salvo e maior que todos os bens que continuam sendo a única preocupação dos donos do dinheiro acumulado no alheio. Cairão todos os tronos da corrupção escondida nas autoridades dos três poderes da República e nos egos das castas da iniciativa privada que se privam do injusto. Virão dia doídos, até que as pessoas conscientizem-se que a vida é uma viagem trabalhosa nas terras, nas águas e nos céus, com rios de suor e mares de lágrimas, aos tropeções em saudades no chão das sepulturas e indo-nos embora sozinhos desse mundo.

A VIDA pode estar por um fio no próximo fôlego de todos com medo do coronavírus tossir na respiração. É a pandemia da síndrome do pânico, contagiosa nos amedrontamentos da sensibilidade e infecciosa no tédio das quarentenas. As pessoas andam tão apreensivas que, se riscar um susto nelas, a ansiedade inflama-se e a paciência explode os nervos. A comoção aflora a susceptibilidade nos afetos machucados na ronda das dores levando a um sofrimento só, todas as famílias.

Em horas assim, os corações se juntam no sentimento. E foi nessa travessia para bondade que Vanderlan Cardoso seguiu pisando nos eleitores de Goiânia, passo a passo no atravessamento do coronavírus. Entrou frontal para a vitória na pesquisa do Serpes, de 24 de setembro: Vanderlan com 22,7% de aprovação e 6,5% de rejeição. Maguito com 13% de aprovação e 13% de rejeição. E chegou de costas na derrota para a pesquisa do Serpes, de 23 de novembro: Maguito com 43,9% de aprovação e 13,5% de rejeição. Vanderlan com 29,7% de aprovação e 19,6% de rejeição. Vanderlan fez o enterro da sua candidatura e a ascensão eleitoral do Maguito.

A campanha do Vanderlan no 2º turno começou cheirando a churrasco de carne podre. Os agouros nos ataques mordazes ao Maguito na UTI soaram inconvenientes como gargalhadas de bobo à procura de velório em sonâmbulos de vitória. Os que passaram a acompanhá-lo estão participando do cortejo de uma candidatura defunta. A unicíssima possibilidade de Vanderlan ressuscitar-se dessa urna mortuária na política será reingressar-se ao Senado, parar de desfalar o que falou e de prometer esmolas aos pobres com o dinheiro público, socorrido nos benefícios dos incentivos fiscais. E frear-se na gula de mandatos populares.

Os valores da aptidão empresarial que o levantaram do rapaz pobre para o cidadão aquinhoado, não o engrandece na vocação política no mandato de senador. Valorize-se, Vanderlan. Penitencie-se no purgatório em um curso de oratória, porque o Parlamento é o poder dos tribunos. Redima-se nos castigos da leitura diária dos sábios, para sair da infernaria das coisas ditas sem ideias no pensamento expressado. Então, senador Vanderlan Cardoso, saia da pontaria do fogo cerrado nas vozes abafadas do povo, que é: “Chega de comerciantes nos mandatos políticos e de políticos nos negócios públicos!”

GOIÁS tem a história cheia de bons governadores, uns mais escassos de percepção intuitiva, outros mais aguçados de senso elucidativo, a maioria com sonhos diferentes no ideal, mas todos aqueles que perderam a reeleição não foram derrotados pelos eleitores e, sim, pelos que estavam à sua volta no Palácio das Esmeraldas.

São os maciotas inatos na bipolaridade do caráter. Encharcados de bajulatório na agradabilidade do sim-sim sediço às conveniências. Reluzentes na nulidade versátil nos enganos. Ligeirinhos no leva-e-traz de boatos catados no anônimo das maledicências. Servís na presença e vís na ausência, intrigam amizades no poder e, ao final, os governadores ficam com as inimizades.

Os ex-governadores de Goiás fizeram obras transcendentais aos marcos do progresso em suas épocas e pagaram nas leiras do tempo cobranças das más línguas por improbidades, que as digitais dos mentores das imprudências morais ficaram encobertas nos calos das mãos dos governadores. Leonino Caiado experimentou o vai-e-vem das malevolências ao começar a viver as amarguras palacianas já no início da metade do seu governo, e disse-me, sofrido e conciliador: “Dou um boi para não entrar numa briga e dou uma boiada para sair dela”.

Os enriquecimentos ilícitos alimentam-se na corrupção de mamando a caducando nos berços dos partidos políticos, à esquerda e à direita nas facções ideológicas e expandem-se oligarcas nas genealogias; existem, pois, nas ralés e nas nobrezas, de ponto a ponto nos lugares desse mundo, pessoas invigiáveis na inescrupulosidade comportamental. Espiem-nas com tolerância ao intolerável. Elas estão sendo expiadas nos últimos dias dos seus anos vadios.

AS ELEIÇÕES de 2018 e de 2020 são divisoras de água, com os naufrágios inesperados e com emergentes surpreendentes naquelas e naufragados nestas. São as ondas da mudança do Fim dos Tempos prometida, afogando as ilhas do egoísmo nos arquipélagos da hipocrisia. Gota à gota, as corruptelas entesouradas ao fundo de toda forma de poder virá à tona e, uma por uma, ficarão boiando ao descaso público até que todas se vão da Terra.

Acabou-se o tempo do que está fora do seu lugar. Político eleito com votos de outros, acabou. Rico com os ganhos de muitos, findou. A vinda do que não é justo, parou. A esperança de tudo voltar a ser como era antes, terminou. O falso de pé, não se firma. O Verdadeiro caído, se levanta. E não há pressa, a mudança será devagar. O desigual que houver junto, distanciar-se-á. O feito pelos maus aos bons nos dois mil anos no Novo Testamento, terá o seu dono no Fim dos Tempos.

Os dias da redenção estão contados. Aproveitem e paguem as contas abertas com a vida. Desarquivem-nas na consciência. Rasguem o ódio e joguem-no para fora do coração. Confiram as lembranças amargas nas memórias e vão-se embora delas na cabeça. Todos temos arrependimentos ocultados e precisamos ir onde estão as nossas culpas. Nada é tão honesto quanto assumirmos os próprios erros. Desenvaideçam-se na humildade. Encham-se de bondade nos gestos dos atos. Parem de bater nas faltas de outros e estapeiem-se em suas falhas. Não é mais a hora de pôr a própria cruz nos ombros de outros. E é o que os políticos mais fazem entre eles nos adversários, quando não cospem nos que lamberam. Que é o que estão fazendo com o governador Ronaldo Caiado chusmas que se serviram do seu apoio para se elegerem nos combates à corrupção e que, dos quais, uma porção aliou-se à ela no uso do poder.

Conheci o Ronaldo na planície dos anos e desde logo notei-o incômodo à uma safra de políticos, igual percebo-me inoportuno a plêiades de jornalistas. Ele é incorruptível. Apegado à solidariedade e rejeita a cumplicidade. Vê-lo engradado ao governo lembra-me uma águia na gaiola. Não se adapta ao estilo Bolsonaro, mas a situação financeira do Estado recomenda na cordialidade de Ronaldo a gratidão do governador de Goiás ao presidente do Brasil pelos socorros dos recursos da União.

O neto de Antônio Ramos Caiado, o Totó, é imodelável às conveniências pessoais. Nem foi deputado federal, senador ou chegou a governador por herança política. Se o povo brasileiro busca um líder capaz de acabar com a corrupção nacional, Ronaldo Caiado é o caráter sem vestígios de bandido na retidão moral. E, sobretudo, é um romântico que planta sonhos.

Não faz armistícios com corruptos. Os que se agendaram em mazelas no atual governo, foram afastados criminalizados dos cargos. Jamais intimida-se ante a barulheira dos rumores de que se desgastou para a reeleição; afinal, não há como evitar o risco da impopularidade no inicial do mandato ao vergastar os desmandos consolidados; todavia, é sintoma prenunciante da popularidade no final do governo. Ronaldo Caiado não se torce dos perigos que tem de fazer no certo. Ao surgir o coronavírus, agiu absoluto em defesa da vida, enquanto forças poderosas uniram-se na salvação dos lucros. Agora, aí está a calamidade dobrada na pandemia, levando da vida para morte mais gente das elites que das populações das favelas.

Ronaldo Caiado bate duro na intocabilidade dos mecenas e não pisa na dor das enfermidades alheias e sequer geme nas suas. Falta-lhe apenas dar o passo do estadista. Sair dos rastros que levam mais sofrimento aos que já estão sofrendo demais com os ferimentos abertos na honra: Quem perdoa é Deus. Mas a piedade, amigo Ronaldo, é a caminhada que nos leva para onde o futuro mora no presente.

BATISTA CUSTÓDIO