O século XXI brasileiro nasceu sob o signo da fúria. Uma fúria que não se limita a embates parlamentares, mas que tomou corpo como um Fla X Flu ou Goiás X Vila, dos anos 80 e 90, agora transposto para a política.
É uma rivalidade que se retroalimenta nas ruas, nas câmaras, nos tribunais e, sobretudo, nas redes sociais. O fluxo da informação instantânea — veloz, fragmentado, avassalador — nos coloca como patinadores sobre um gelo que racha atrás de cada passo.
A cada avanço, abrem-se crateras: fotos, vídeos, manchetes, áudios, tudo despejado de maneira quase sufocante. Hoje, 2 de setembro, início do julgamento de Jair Bolsonaro, basta abrir Instagram ou Facebook para sentir o peso dessa avalanche.
Este país, em pouco mais de duas décadas, viu três presidentes conhecerem a prisão: Lula, Michel Temer e Bolsonaro — este, em regime domiciliar. Afastou Dilma Rousseff por impeachment.
Nenhuma democracia madura sobrevive sem traumas a tamanha sucessão de choques. Entre censura, liberdade e limites, o Brasil se perde em palavras jogadas como frutas na feira: cada grupo escolhe o que lhe convém, molda o termo e o transforma em arma.
A polarização alcançou tamanho absurdo que até a neutralidade virou pecado: quem se mantém no meio é rotulado, discriminado, empurrado para um dos lados.
É urgente que o país repense suas instituições e suas práticas políticas.
O Congresso precisa se libertar da lógica rasteira do imediatismo; o Executivo, compreender que governar não é inflamar, mas pacificar; e o Judiciário, encontrar o equilíbrio entre autoridade e evolução.
Mais que tudo, é preciso paciência coletiva para escolher e respeitar representantes. O Brasil, neste início de século, ainda não aprendeu a conviver com sua própria democracia. E não aprendeu a buscar pelo principal: a paz.
Cristiano Silva
Editor

















