terça-feira , 27 outubro 2026
Editorial

Editorial: A Justiça Eleitoral não pode ser empurrada por irresponsáveis

• O país tem no judiciário o que merece

A Justiça Eleitoral brasileira é uma instituição indispensável à democracia. Defendê-la, entretanto, não significa fechar os olhos para decisões tardias, procedimentos questionáveis ou iniciativas partidárias que colocam sua credibilidade em situações desnecessariamente delicadas.

O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 oferece um exemplo preocupante.

Tudo começou com aquilo que jamais deveria ter sido objeto de disputa: o direito do eleitor de chegar à urna.

Em Salvador, na Bahia, a retenção de ônibus provocou uma crise que chegou à Justiça Eleitoral. O secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, foi alvo de uma ordem de prisão posteriormente revogada, sem prejuízo da apuração dos fatos.

A justificativa apresentada pela prefeitura envolvia adesivos de propaganda eleitoral do PT nos veículos.

Ora, desde quando um adesivo deve se transformar em obstáculo ao direito de votar?

Se havia propaganda irregular, cabia determinar sua retirada e responsabilizar os envolvidos. O que não se pode admitir é que o eleitor seja prejudicado por uma disputa entre políticos malandros querendo proibir o transporte público para proveito eleitoral.

Em São Paulo, outra controvérsia. A Justiça Eleitoral havia determinado a circulação de 100% da frota de ônibus. O PT denunciou descumprimento; a administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB) também caiu na malha fina do abuso.

São situações distintas, com responsabilidades que precisam ser individualmente apuradas. Mas revelam o mesmo problema: o transporte público, que deveria garantir o exercício do voto, acabou no centro de uma batalha política.

• A Justiça não pode esperar a crise explodir

O pedido de prorrogação da votação foi apresentado pelo PT na tarde do domingo. A Justiça eleitoral não agiu. A questão chegou ao Supremo Tribunal Federal, foi distribuída ao ministro Cristiano Zanin e resultou na determinação de estender o recebimento dos votos até as 19h.

O problema não está em um ministro analisar uma medida urgente. Está no fato de uma eleição presidencial chegar aos seus minutos finais sem uma solução da justiça eleitoral, que tinha o dever de agir com rapidez, segurança e previsibilidade. Cabia apurar as ocorrências, avaliar seus efeitos e decidir, dentro de suas competências, quais providências eram necessárias.

Não se trata de exigir uma decisão favorável ao PT ou ao PL. Trata-se de exigir uma decisão oportuna, fundamentada e compreensível para todos.

Até a campanha de Flávio Bolsonaro pediu prorrogação em municípios atingidos por problemas climáticos.

É uma situação que poderia ter sido evitada? Essa pergunta precisa ser feita.

Como diria Raul Seixas, ficar com a “boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar” não dá. E assim fez a justiça eleitoral.

• Veja o que ocorreu em Goiás

O Goiás24Horas também enfrentou, durante o processo eleitoral, uma sucessão de ações propostas pelo MDB, partido do governador de Goiás.

Em nossa avaliação editorial, essas iniciativas foram construídas sobre alegações falsas e ofensivas à reputação do veículo, inclusive a afirmação de que o Goiás24Horas seria apócrifo, sem identificação de seu responsável.

É uma alegação que contestamos frontalmente.

Como pode ser tratado como inexistente um veículo jornalístico que atua publicamente há aproximadamente 14 anos? Um veículo de comunicação com editoriais assinados, reportagens e entrevistas de vídeos diários, que cobriu a Copa do Mundo, e desce o sarrafo na safadeza política tendo a frente o seu dono, jornalista Cristiano Silva, que o próprio MDB processou no mesmo Tribunal alguns dias antes, passou a não existir?

A controvérsia não é apenas sobre o direito de um partido de recorrer à Justiça. Esse direito existe e deve ser respeitado. O problema é quando a mentira vale mais do que a verdade por conveniência. Aí é abuso.

Um exército de advogados não transforma uma alegação em verdade

A atuação jurídica do MDB incluiu uma equipe de advogados, entre eles uma filha do ex-governador de Goiás, a frente é vergonhosa, mentirosa, abusada e calhorda.

Do outro lado, o advogado Leandro Silva assumiu a defesa de Cristiano Silva, do Goiás24Horas. Sozinho contra um batalhão brancaleonico que bateu cabeças nas ações e se perdeu nas próprias mentiras.

A diferença de estrutura não determina quem tem razão. Tampouco o prestígio político de um cliente pode substituir a necessidade de provas.

Na linguagem do cinema, parece que algumas narrativas processuais do MDB passam por tantas montagens que fariam inveja a Sergei Eisenstein, mestre da montagem soviética.

Mas a Justiça não é uma sala de edição.

Um processo não pode selecionar apenas os enquadramentos convenientes e deixar fora de cena aquilo que contradiz a acusação.

É por isso que contestamos as alegações apresentadas contra o Goiás24Horas e defendemos o exame cuidadoso de cada documento, cada manifestação e cada decisão.

Não cabe presumir má-fé de todo advogado que apresenta uma tese rejeitada pela parte contrária. Cabe, porém, exigir responsabilidade, boa-fé processual e compromisso com a verdade dos fatos, sem distribuir liminares como pastel na feira.

• Defender a Justiça é cobrar responsabilidade

A Justiça Eleitoral não pode ser transformada em instrumento de conveniência partidária, tampouco deve ficar refém de disputas fabricadas ou de decisões que chegam quando o dano já está consumado.

A Justiça Eleitoral precisa de magistrados atentos, decisões bem fundamentadas, advogados responsáveis e respeito inegociável à liberdade de expressão.

Não precisamos de uma Justiça que favoreça governos e partidos.

Precisamos de uma Justiça que examine os fatos, aplique a lei e não permita que interesses políticos a empurrem de uma crise para outra.

Cristiano Silva
Editor do Goiás 24 Horas