Cileide lamenta morte de um estilo político com Mauro, que não deixa herdeiros

No tradicional artigo dominical em O Popular, a jornalista Cileide Alves, editora-chefe do jornal, lamenta a morte de um estilo político com o passamento do ex-governador Mauro Borges. Ela diz que o filho de Pedro Ludovico priorizava o interesse público em detrimento às ações eleitoreiras. O artigo se insere também no debate nacional sobre o direcionamento do governo Dilma Rousseff para a campanha de reeleição da petista.

Veja o artigo:

O fim de um estilo político

O ex-governador Mauro Borges, morto sexta-feira, não deixou herdeiros políticos. Ele próprio não conseguiu ser o sucessor de seu pai, Pedro Ludovico Teixeira, que morreu em agosto de 1979 dizendo “que politicamente o nome de Iris (Rezende) é o mais forte (para ser candidato a governador em 1982) devido ao sentimento de gratidão”, de acordo com entrevista republicada pelo POPULAR em 17 de agosto daquele ano, um dia após sua morte.

O governo de Mauro Borges (1961-1964) demarcou a diferença entre os estilos político e administrativo de pai e filho. Pedro Ludovico exerceu o poder por meio de uma liderança ao mesmo tempo carismática e autoritária. Apadrinhava as indicações dos diretórios municipais para cargos, que, em retribuição, eram leais a sua liderança.

Mauro foi o primeiro a romper com essa tradição, e o fez porque era filho do chefe político, o único com liberdade para enfrentar o pai. Nomeou quadros administrativos fora das indicações do PSD para um governo inovador que buscava a racionalidade administrativa e a execução de um plano de metas. Beneficiou-se também, como observou sexta-feira o historiador Nasr Chaul, dos “antecedentes históricos como a construção de Goiânia e a Marcha para o Oeste” e das bases administrativas implantadas por governos como o de Juca Ludovico (1955-1958), com foco em investimentos em transporte e em energia.

Conforme Chaul, “o governo de Mauro Borges foi uma antítese do governo cartorialista de seu pai” e, assim, ele “aparelhou o Estado para que Goiás pudesse fazer parte do capitalismo desenvolvimentista”. Para o historiador, só é possível compreender o processo atual de agroindustrialização de Goiás entendendo o governo de Mauro, que deixou este grande legado.

De formação militar, o ex-governador comprou grandes brigas políticas para executar suas metas. Não fez concessão aos políticos e abriu, assim, seu grande flanco, que foi justamente o político. Em sua autobiografia (2002), Mauro relembrou: “Se não fossem a autoridade e o prestígio político de meu pai, as reformas do Estado não teriam sido implantadas. Tive de romper com vícios e cacoetes políticos com comportamentos eleitoreiros e clientelistas, para arrancar o Estado de uma rotina política que tolhia sua vocação para avançar e progredir”.

E é nesse ponto que o ex-governador não deixa herdeiros, na opção que fez pela gestão e não pelas práticas político-eleitoreiras. A política atual, infelizmente, segue caminho diferente, com lideranças cada vez mais fazendo concessões para se manterem no poder. E assim se enfraquecem para tomar as corajosas decisões necessárias para alavancar o desenvolvimento econômico do Estado.

Os políticos atuais são populares e exercem o poder sobre a maioria dos partidos e lideranças que abrigam sobre o leque de suas bases aliadas, mas correm o risco de no futuro não terem obra relevante do ponto de vista do Estado e de sua população para imortalizarem seus nomes na história goiana, como acaba de fazer Mauro Borges Teixeira.