Comprando Goiás: jornalistas parecem estar imobilizados ou hipnotizados por Friboi

Goiás vive hoje um dos capítulos de maior violência e relevância em sua história.

O pleito eleitoral que se anuncia em 2014 será palco de uma disputa ímpar: possivelmente um candidato pretende comprar Goiás. Leia-se de novo: comprar. Simples assim.

A subversão constitucional é tamanha que a ficha talvez ainda não tenha caído nem mesmo na cabeça dos formadores de opinião.

Nas teorias de jornalismo, o jornalista é considerado o líder de opinião, aquele que distribuirá informações e as esclarecerá – e acelerará junto às comunidades e cidades atitudes, modos e comportamentos.

Todavia, no episódio mais esquisito e bizarro da política goiana, observa-se uma nítida paralisia: os principais jornalistas goianos, geralmente aguerridos e opinativos, nada falam sobre uma candidatura que nasce sob a medida do poder econômico e sob a égide do lulismo.

Não é novidade para ninguém que Júnior do Friboi é um desconhecido político. Não sabemos o que ele pensa, mas não por nossa culpa como operadores da mídia. Mas porque ele realmente pensa pouco. Não é raro jornalistas reclamarem de que Friboi não atende aos seus pedidos de entrevista. Também pudera. Ele já sabe que quanto menos exposto, menos precisará desta esfera de oportunidades.

Friboi atua, na verdade, é nos bastidores. Prefere o privado, o mistério e o que não é público. É representante de uma nova tradição política. Bastou mover um dedo e conseguiu retirar da sua frente a família que por décadas comandava o PMDB goiano. Se acharmos isso normal, então realmente estamos prontos para uma nova era, que não sabemos qual exatamente, mas que tira a mídia e nós, jornalistas, da centralidade.

No passado, exigia-se que político soubesse fazer discursos, dominasse a retórica da política. Cícero falava de homens que guiavam outros homens pela moralidade e palavra. Isso durou algum tempo, digamos séculos. Existia em Goiás, principalmente, uma tradição de discurso e de uso racional da mídia e da palavra. Políticos como Xavier de Almeida, Pedro Ludovico, Alfredo Nasser, Mauro Borges, Henrique Santillo, Iris Rezende e até mesmo Marconi Perillo se formaram na escola do discurso.

Pois bem. A fase dos discursos inflamados acabou. Surgiram então ideias que seriam embaladas no marketing das campanhas, pessoas que do nada se tornavam líderes, caso de Fernando Collor de Melo, Dilma Rousseff e o recente caso de Fernando Haddad. Pois isso agora também acabou. Na nova era, pelo menos em Goiás, é money, money, money. Afinal, concordamos com isso?

O que estamos assistindo em Goiás é uma aberração. Observa-se o anúncio de atitudes monossilábicas e robóticas. Assistimos ao vivo e em cores que todo mundo fala que Friboi está disposto a gastar o que for preciso para ser governador. Jornalistas repetem isso sem a menor crítica: acham normal, por exemplo, um megaempresário comprar o governo de Goiás, mesmo nunca tendo militado na política e não defender ideia alguma, projeto algum, solução nenhuma. Afinal, será que Friboi sabe a diferença de uma lei para outra? De uma secretaria para outra? O que pensa Friboi sobre Ciência e Tecnologia? Alguém imagina Friboi de chapéu na solenidade de abertura do Festival Internacional de Cinema (FICA)? Ou seria melhor extinguir o festival para não ter que se ver uma cena dessas?

Que Friboi queira gastar o seu dinheiro, tudo bem, mas os jornalistas tratarem isso com naturalidade e até apresentar isso como virtude é algo grave. Demonstra o desconhecimento total dos princípios republicanos, a falta de noção das funções públicas que ocupa, ao celebrar o dinheiro como virtude. Pasme, um grupo de jornalistas sem a estirpe da profissão, mal formados, até comemora pelas redes sociais o fato de Friboi ser o ‘cara do dinheiro’, do ‘money’, dos recursos abundantes das negociatas com o BNDES. É evidente que atitudes como essa mais do que soar como suburbana, nos leva – como mídia – a um grau nunca antes alcançado – um grau de subserviência, de inutilidade e de desprezo,

Ninguém se indignar (nem protestar) contra uma situação que corrompe o jornalismo político em sua história, estrutura e função é algo para se pensar. É nessa hora que perguntamos: onde estão as Fabianas, Cileide, Hélio Rocha, Vassil, Altair Tavares, Batista Custódio?

Onde estão as palavras de Jorge Kajuru, Jarbas Rodrigues, Jackson Abrão, Ulisses Aesse, Welliton Carlos?

Então, Rosenwal Ferreira, o que você tem a dizer sobre isso? O que Luiz Gama, Pablo Kossa, Laerte Júnior, padre Jesus Flores e Ranulfo Borges podem nos dizer quanto a nova era da política goiana que todos deixamos acontecer? Então é assim, pede-se um caminhão de dinheiro e desta forma governamos em Goiás? Mas de onde sairá os recursos para pagar uma campanha que em vez de ideias terá notas de cem reais e dólares?

Será que Nilson Gomes, Cleber Ferreira, Diogo Luz, Luiza Carlos Bordoni, Lênia Soares, Luiz Signates e Helton Lenine acham que é isso mesmo, que vamos todos agora para a política do milhão? Jornalistas, portadores de ideias, abrem mão da forma dialógica de se fazer política?

Ivan Mendonça, Alziro Zarur, Deusmar Barreto, Paulo Beringhs, os irmãos Bittencourt, Armando Accioly têm a noção do que se passa em nossa história? E o ‘dejavu’ de Henrique Meirelles? Recordaram? Vocês, todos nós, conseguimos observar a grandiosidade desse momento? O silêncio de todos neste caso é comprometedor.

 

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